CAPÍTULO UM  
Como uma imensa árvore-de-natal  
“A esperança é aquela coisa com penas que pousa na alma e canta a melodia sem  
palavras.”  
— Emily Dickinson  
Sou aficionada.  
Me considero uma leitora comprometida de livros de ficção e, para  
ser sincera, não há nada no mundo que me tire suspiros demorados  
como um bom e velho livro de romance. O romance é  
frequentemente definido pela promessa de um “felizes para sempre”  
no final do último capítulo — embora isso não seja, obviamente, uma  
regra.  
Sendo bem patética, o que não faz muito o meu estilo, eu queria ter  
a chance de pular para dentro de um livro de romance ao estilo de  
Orgulho e Preconceito ou até mesmo Romeu e Julieta — apesar do  
final trágico — e ser a protagonista pela qual o mocinho faz de tudo  
para agradar. Geralmente, o que já se tornou um clichê, esses  
homens são incrivelmente lindos, inteligentes e perfeitos, e até  
prometem queimar o mundo se isso fizer a mocinha feliz.  
Em muitas histórias de romance que já li, as mocinhas têm uma  
vida difícil e, na maioria das vezes, são pobres e lutam para alcançar  
algum objetivo que mudará suas vidas drasticamente. E, como tudo  
nesses livros é roteiro, alcançar esses objetivos significa mudar para  
melhor. Quando encontram algum empecilho no meio do caminho, o  
mocinho aparece em seu socorro, fazendo com que ela atinja o seu  
objetivo — geralmente com menos dificuldade.  
Ah… claro.  
Tudo o que eu queria era o meu cavaleiro de armadura e cavalo  
branco vindo me salvar.  
Mas não! Isso só acontece nos livros.  
Na realidade, se você tem câncer, você tem e ponto. Não há como  
fugir disso. Mesmo que um cara lindo apareça para te “salvar”, você  
vai continuar tendo câncer, e a sua batalha será travada sozinha. Ele  
não vai poder te ajudar. É assim que é.  
Respira!  
Foco, Esmay! Não é hora para besteiras!  
Eu poderia ficar horas divagando sobre livros, músicas e até  
mesmo os meus pratos preferidos, sem dar a mínima para o que o  
homem à minha frente está falando. Mas a maneira como a minha  
mãe pressiona minha mão direita e o meu pai segura firme o meu  
ombro me faz ancorar meus pensamentos por alguns segundos e  
parar para ouvir o que o homem está dizendo.  
Ele tem olhos escuros e puxados. Estou há um tempo tentando  
adivinhar sua idade. Cinquenta e seis? Não. Ele parece mais velho.  
Sessenta anos, então? Isso. Ele deve ter sessenta anos. Seus traços  
deixam clara sua origem asiática. Dá para ver que ele não cresceu no  
Brasil pelo sotaque carregado e pelos pequenos acenos de cabeça que  
faz, como se estivesse acostumado a demonstrar respeito daquela  
forma.  
Câncer? — ouço mamãe dizer, enquanto aperta minha mão dez  
vezes mais forte. — Como isso é possível? Ela só tem 24 anos. É  
perfeita!  
Câncer… Câncer, câncer, câncer.  
Tenho câncer?  
Repito um zilhão de vezes essa pergunta na minha mente, na  
esperança de que se torne menos verdade. Na intenção de acreditar  
que estou em um sonho. Ou melhor: um pesadelo.  
Meu coração dispara, batendo no pescoço como se eu estivesse  
competindo em uma meia maratona. Sinto o chão sob meus pés  
ceder. Vou despencar de um lugar muito alto se continuar pensando  
sobre isso.  
Câncer. Tenho câncer.  
Aperto a manga do meu casaco e um tique nervoso começa a se  
formar nos meus dedos. Minha mandíbula treme involuntariamente.  
Não quero chorar. Entretanto, acho que vou.  
Tenho câncer. Como isso é possível, doutor… Zhang Wei?  
Veja só, ele tem ascendência chinesa. Obrigada por me enriquecer  
culturalmente, doramas!  
Minhas mãos estão formigando e minha boca fica seca. É difícil  
engolir, até falar. No entanto, sinto uma desconexão com o meu  
próprio corpo. Meus lábios se abrem antes mesmo de a minha mente  
atordoada perceber o que estou dizendo:  
— Senti muitos sintomas estranhos e persistentes nas últimas  
semanas para alguém “perfeita”, mãe.  
Sacudo a cabeça, como se isso pudesse organizar a confusão que se  
instalou em meus neurônios, estalo a língua entre os dentes (um  
hábito estranho que adquiri com o tempo) e me remexo na poltrona  
confortável e macia demais, como se alguém tivesse tentado  
compensar o meu sofrimento dizendo: “Você tem câncer? Ok. Mas…  
você está confortável? O tecido da poltrona é macio? Quer uma  
xícara de chá?”  
Faço tudo e, ao mesmo tempo, nada .  
Um silêncio toma conta de cada canto desse consultório  
ridiculamente sofisticado, e até mesmo de mim, o que é um feito  
considerável.  
Estou atordoada. Meu cérebro me prega peças. Charadas que não  
consigo desvendar.  
Observo o ambiente ao meu redor e percebo a cafeteira importada  
em um canto da mesa. Uma cafeteira importada. Quem precisa de  
uma cafeteira importada em um consultório Oncológico? Quero ir  
até lá utilizar uma das cápsulas para me servir de um delicioso café.  
Eu quero um café.  
Quero?  
Quero mesmo?  
Meu cérebro está me pregando peças. Outra vez. Adivinha? Eu  
nem tomo café. Mal lembro a última vez em que coloquei um gole na  
boca, então por que diabos estou cogitando isso agora?  
Doutor Zhang divide o seu olhar entre mim, o tablet e os últimos  
exames que fiz. Não me apego a isso. Só consigo sentir o aroma do  
desinfetante de lavanda que usaram mais cedo na limpeza. Até isso  
parece ensaiado.  
Meus pais me encaram, ambos estupefatos com o meu  
comportamento estranho diante de uma situação tão…  
desestabilizante.  
Massageio a parte posterior do pescoço com as mãos pegajosas,  
tentando desfazer uns nós que se formaram.  
Fito meus pais mais uma vez. Eles estão com uma expressão que  
me destroça por dentro. Não posso lidar com isso. Não agora. Sendo  
assim, escolho apenas desviar minha atenção para o doutor Zhang —  
não antes de murmurar um “desculpe” para a minha mãe.  
A verdade é que nem sei o motivo de ter feito tal comentário. Não  
estou em condições de opinar em absolutamente nada. Meu coração  
parece que vai sair pela boca. Minha garganta está tão seca que é  
difícil engolir a saliva e, se eu continuar a sentir tanta falta de ar  
assim… temo desmaiar aqui mesmo. Pelo menos há um ponto  
positivo em estar em um consultório médico.  
Cansaço incomum, suor noturno inconveniente que encharcava  
minhas roupas, febre baixa no fim da tarde… Deus, até coceira sem  
causa aparente e perda de peso eu tive. Perdi três quilos, para ser  
exata, já que não estava com apetite. Faltei inúmeras vezes às aulas  
da faculdade por achar que estava exausta demais. Pensei até que  
poderia ser anemia. Mas, sabe como é… A vida adora pregar peças na  
gente.  
Após um episódio nada agradável de tontura e desmaio na  
universidade, fui ao médico para saber o que estava acontecendo.  
Para mim, não parecia nada demais. Só um mal-estar. No exame  
físico, o médico constatou um linfonodo aumentado; era indolor e  
firme, na região do pescoço (cervical esquerda). Quando o médico  
solicitou exames estranhos demais para o meu gosto, eu desconfiei  
que poderia haver algo errado comigo. E então os resultados  
arrasaram as minhas chances de não ser nada grave: hemograma  
alterado (leve anemia, leucócitos aumentados). Raio-x do tórax  
mostrando massa mediastinal (sombra aumentada).  
Encaminhamento para um hematologista-oncologista.  
Quando ouvi que ele me encaminharia para um hematologista, não  
saquei. Mas, quando disse a próxima palavra: oncologista… Droga!  
Meu cérebro se acendeu em alerta, como uma imensa árvore de  
Natal.  
Oncologia tinha a ver com câncer, e câncer não era nada bom.  
O especialista solicitou uma biópsia do linfonodo que confirmou:  
— Linfoma de Hodgkin… O-o quê? — gagueja meu pai, e o doutor  
Zhang endireita os óculos fundo de garrafa.  
— Linfoma de Hodgkin clássico, subtipo esclerose nodular. É um  
câncer bem comum em jovens — explica o médico, e meu pai afunda  
as unhas na pele dos meus ombros. Ele continua: — É o subtipo mais  
frequente, responsável por cerca de 60% dos casos de linfoma de  
Hodgkin clássico.  
Eu tenho muita sorte ou muito azar?  
Posso estar enganada, mas percebo que a voz dele não demonstra  
ansiedade aparente. Isso significa que não deve ser tão ruim, né?  
— É um câncer mais comum em adolescentes e adultos jovens e  
quase sempre afeta gânglios linfáticos no pescoço, acima da clavícula  
e no tórax (mediastino) — continua o doutor Zhang, e eu prendo a  
respiração.  
Ah, Deus! Técnico.  
Ele é muito técnico. Preciso, incisivo.  
Minhas mãos estão suando e eu respiro com dificuldade. Meu  
queixo treme freneticamente, e encontro uma forma de apaziguar  
esse caos: mordo o lábio inferior e aperto os olhos com força. Uma  
única lágrima abre caminho pela minha bochecha, apenas para que  
outras a acompanhem logo em seguida.  
— Tudo bem, Esmay? — pergunta o doutor Zhang, em alerta. — Se  
estiver sentindo alguma coisa basta…  
— Estou bem, doutor — minto.  
Minhas mãos estão trêmulas e eu pisco várias vezes na intenção de  
evitar que meus olhos derramem mais lágrimas. Impossível. Sinto-  
me meio estranha também, já que a atmosfera do consultório é  
assustadoramente sufocante.  
— Pode me responder uma pergunta? — soluço, enquanto perfuro  
seus olhos escuros, meu estômago se revirando feito vendaval.  
Ele aquiesce com a cabeça.  
Retiro uma mecha do meu cabelo cacheado do rosto, e ele observa  
o percurso que mais uma lágrima faz na minha bochecha. Eu ignoro  
o pavor que estou sentindo.  
— Esse câncer é agressivo? — indago, sem saber ao certo o que  
fazer com as minhas mãos inquietas.  
Esmay…  
Mamãe choraminga ao meu lado e aperta minha mão novamente.  
Acho que vinte vezes mais forte que da última vez.  
Sinceramente? Se o câncer não me matar, ela vai. Ou ao menos  
pode me causar uma lesão nos nervos de tanto apertar.  
Ela se remexe na cadeira para ficar de frente para mim, mas  
continuo encarando o senhor Zhang. Só quero que ele seja sincero.  
Médicos precisam ser, ou ao menos eu acho isso. Ele endireita os  
ombros e desliza os dedos pelos cabelos lisos e grisalhos. Isso me  
deixa incomodada. Médicos são tão frios, insensíveis. A impressão é  
a de que estamos no meio de uma palestra de saúde sobre Oncologia.  
— Os cânceres considerados — ele faz aspas com os dedos — mais  
agressivos são o glioblastoma e o melanoma… — diz pausadamente,  
como se eu fosse me desfazer em mil pedaços caso ele falasse mais  
rápido. — A essa lista, podemos incluir também os cânceres de  
pâncreas, pulmão, fígado e intestino (colorretal). Mas é importante  
lembrar que a agressividade pode variar conforme o tipo e o estágio.  
Essa ordem, no fim das contas… é uma generalização.  
Ergo as mãos e as chacoalho no ar, chamando sua atenção. Ele está  
desviando da minha pergunta. Ótimo! É tudo de que preciso.  
— Doutor Zhang… não preciso de uma aula extensa sobre tipos de  
câncer. Não agora — rebato. — Por favor, só responda à minha  
pergunta e seja o mais direto possível, sem enrolação!  
O médico pigarreia, envergonhado, e ergue uma sobrancelha  
grisalha. Fantástico! Agora, além de fazer parte dos 60% de jovens  
adultos com câncer de Hodgkin, sou também mal-educada.  
Sinceramente? Pouco me importo.  
— Qual o prognóstico? Acha que vou perder a minha qualidade de  
vida, doutor? — pressiono, e ele se curva para frente apoiando as  
mãos com os dedos entrelaçados sobre a mesa. — Tenho chances de  
remissão?  
Ele sorri. É rápido, mas eu percebo. Não sei bem o que pensar  
sobre isso.  
— Meu câncer é agressivo? — repito a pergunta. A pergunta de  
meio milhão de dólares, que vai acabar me deixando maluca se ele  
não responder. — Doutor — imploro. — Meu câncer é agressivo…  
como o de Sthela?  
Deus do céu! Sou horrível por perguntar algo assim? Sou egoísta  
por querer que meu câncer não seja como o câncer de uma das  
minhas melhores amigas?  
Meu câncer. Algo nada agradável para eu chamar de meu.  
— A questão é essa, Esmay? — retruca o médico.  
Fico em silêncio.  
Meus pais estão calados há bastante tempo. Isso é, no mínimo,  
problemático. Ele continua:  
— O câncer de Sthela é no pâncreas. Extremamente agressivo e  
com alta taxa de mortalidade, devido ao diagnóstico tardio.  
Geralmente, é assintomático nos estágios iniciais.  
Um câncer como esse, quando detectado, já fez muito estrago.  
É óbvio que o doutor Zhang tem conhecimento de quem é Sthela.  
Todo mundo na clínica sabe seu nome, desde a recepção até os  
enfermeiros que circulam em silêncio pelo piso de porcelanato polido  
e os corredores amplos e iluminados. Ela é o que eles chamam de  
caso raro e extremamente complexo.  
Jovem demais para um câncer no pâncreas.  
Ouço meu pai soltar o ar, e mamãe afrouxa o aperto em minha  
mão. Sinto meus tendões dos dedos doloridos.  
— Sthela está no que a gente chama de cuidados paliativos. —  
Mordo a parte interna da bochecha e aperto as mãos até sentir as  
unhas perfurando a pele. — Isso significa que…  
— Eu sei o que isso significa! — interrompo. — Ela é minha melhor  
amiga. Não precisa me falar. Eu sei.  
O ar fica preso na minha garganta, e um aperto no peito, quase  
insuportável, me faz pressionar os lábios com força. O ar do  
consultório agora está frio demais, sufocante.  
Quanta dor sinto agora.  
Meu coração parece que vai se partir em um zilhão de pedacinhos  
microscópicos. Minhas mãos estão pegajosas, e eu sinto ainda mais  
vontade de chorar. Conheço Sthela, e ela é minha melhor amiga. Eu  
sei. Sei o que são cuidados paliativos.  
O médico se remexe na cadeira, e o barulho do corpo em contato  
com o couro me assusta. Meu Deus! Endireito os ombros, antes  
curvados, e pressiono os olhos com a palma da mão, bem na base, na  
esperança de acalmar a mente. Percebo um leve incômodo em sua  
expressão facial. Suponho que o doutor Zhang não possua muita  
habilidade para lidar com pacientes emocionalmente intensos.  
— O seu câncer não é agressivo, Esmay — declara, enfim.  
Abro meus olhos castanhos, e ele percebe minha surpresa. É óbvio  
que estou surpresa, doutor Zhang.  
— Na verdade, ele possui altas taxas de cura. O prognóstico  
geralmente é positivo , pois é uma forma de linfoma que responde  
bem aos tratamentos. — O homem fala com a voz um pouco mais  
baixa agora. — Minha querida, sei que é duro um médico dizer isso a  
alguém… Mas, não se compare à Sthela. São casos extremamente  
diferentes.  
Ar volta a preencher meus pulmões, de novo e de novo.  
Fluidamente.  
Meu coração continua acelerado, mas minhas mãos param  
finalmente de tremer.  
Meu rosto arde — arde muito.  
Eu sei o que é isso… é a vontade de chorar, que estou segurando  
como uma louca, como se a minha vida dependesse disso.  
Não me comparar à Sthela…  
Como sou egoísta por pensar que estou feliz pelo meu prognóstico  
não ser negativo.  
Tenho chances.  
Meu pai acaricia minhas costas ternamente. Isso me faz lembrar de  
quando eu era criança e ele fazia o mesmo quando eu me machucava  
e corria ao seu encontro para que ele pudesse me acalmar. Algumas  
coisas nunca mudam.  
— Qual o próximo passo agora, doutor? — pergunta papai.  
Durante diversos momentos, meus pais se mantiveram em  
silêncio, acredito que tentando processar a avalanche de informações  
tenebrosas que se lançou sobre nós em tão pouco tempo. Não os  
culpo. Sou a única filha que meus pais têm, e eles possuem todo o  
direito de sentir medo por mim. Minha mãe aperta minha mão. Um  
aperto leve, confortável.  
Em contrapartida, meu coração dói. Grita em meu peito.  
— O que o senhor disser, nós faremos! O tratamento que for, nós  
pagaremos — assegura mamãe, acariciando o dorso da minha mão  
com o seu polegar.  
Eu os amo com todas as minhas forças.  
O médico respira fundo, como quem escolhe cada palavra com  
cuidado.  
— Agora que temos a confirmação do câncer de Hodgkin clássico,  
subtipo esclerose nodular, precisamos seguir para a próxima etapa —  
explica, entrelaçando as mãos sobre a mesa. — Antes de iniciarmos o  
tratamento, vou solicitar alguns exames complementares. Eles vão  
nos mostrar a extensão da doença e avaliar se seu coração e seus  
pulmões estão preparados para a quimioterapia.  
Ele me lança um olhar sério, consciente do peso da notícia.  
— Os exames indicam que, além do linfonodo aumentado no  
pescoço e da massa mediastinal que vimos no raio-x, alguns  
linfonodos na região abdominal também estão afetados.  
Precisaremos planejar a quimioterapia considerando toda a extensão  
da doença.  
O médico se levanta, arrastando a cadeira e produzindo aquele  
barulho irritante que sempre me dá vontade de fechar os olhos.  
— Não vai ser fácil, Esmay — diz, com a voz firme, mas não fria. —  
Você precisa ser forte e focar em você e no seu tratamento.  
Estaremos juntos a partir de agora. Assim que tivermos os  
resultados, marcamos o início do primeiro ciclo da quimioterapia.  
— Obrigada.  
É tudo o que meus lábios conseguem dizer.  
Juntos… Na luta contra o câncer?  
Isso é inspirador, doutor Zhang, papai e mamãe. Mas, caso essa  
cruzada dê errado e o câncer se torne um vilão impossível de  
derrotar, as coisas se complicarão somente para mim. Então, por  
mais que essas palavras sejam bonitas, eu me sinto só. Sem ninguém  
para me salvar ou lutar ao meu favor. Sou só eu contra esse tipo  
diferente de Golias, que parece pesar mil toneladas e cheirar a tudo,  
menos coisa boa.  
Ninguém pode me tirar disso.  
Nem mesmo meu cavaleiro de armadura branca.  
Sou só eu.  
Entretanto, afasto todos esses pensamentos para o fundo da minha  
mente abalada. Faço isso com frequência, afinal. É uma das minhas  
habilidades mais… bem, mais úteis.  
Olho para mamãe e papai. Eles parecem confiantes. Doutor Zhang  
não desvia os olhos dos meus. Acho que ele também tem fé de que  
posso lidar com isso.  
Ok. Ok. Posso mentir, então.  
— Estaremos juntos, sim.  
É tudo o que digo, e os três abrem um belo sorriso. Um sorriso  
que, infelizmente, não alcança os olhos. Eles sequer sabem, mas eu  
percebo. Eu presto atenção a tudo. Até mesmo em como eles  
obscenamente se enganam. Insistem em acreditar. Acreditar em uma  
mentira.  
Faço o mesmo com esse sorriso.  
CAPÍTULO DOIS  
As três mosqueteiras  
“Um por todos e todos por um.”  
Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros  
Cada vez que fecho os meus olhos , tento afastar para longe os  
burburinhos dos últimos dias de aula na Universidade.  
As vozes martelam em meus ouvidos: insistentes. Covardes.  
Meus outrora colegas de curso, que participaram de inúmeras  
apresentações de seminários comigo, que insistiam em fazer, ao final  
de cada ano, um amigo secreto em que sempre alguém saía com um  
presente muito duvidoso — como um kit de sabonetes ou algo  
assim… Meus colegas, que adoravam comentar o quanto era  
engraçado e estranho o fato de eu ser uma pessoa introspectiva e, ao  
mesmo tempo, tão divertida.  
Meus companheiros de curso.  
Os mesmos que fizeram para mim um aniversário surpresa de 23  
anos e que se empenharam para me presentear com coisas legais e  
que eram muito a minha vibe — como o box de luxo em inglês de  
Jogos Vorazes, um toca-discos com alguns vinis especiais e a  
coleção em DVD de O Poderoso Chefão.  
Droga! Meus colegas… Agora se transformaram em “especialistas”  
no meu tipo de câncer.  
Eu curso Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Juiz de  
Fora (UFJF) e, a meu ver, é peculiar a ideia de que informações sobre  
o linfoma de Hodgkin, subtipo esclerose nodular, façam parte do  
arcabouço intelectual da maioria dos alunos do meu curso. Ainda me  
pego pensando em como, após o diagnóstico em setembro, tentei  
frequentar a universidade. No entanto, os murmúrios das pessoas à  
minha volta me deixavam desconfortável.  
Não conseguiam mais me olhar para além do meu diagnóstico?  
Era só o câncer o que viam?  
Então, tranquei o curso e me vi obrigada a voltar a morar com os  
meus pais, em Belo Horizonte. Pelo menos até finalizar o tratamento.  
Não que os meus pais estivessem desapontados com a filha sendo  
nada menos do que uma covarde por trancar a universidade e sair  
correndo como uma bebê chorona que perdeu o brinquedo. Eles  
estavam felizes por eu voltar a morar com eles e por aceitar toda a  
ajuda, o amor e o dinheiro que tinham para oferecer.  
A verdade é que eles são seres humanos incríveis e completamente  
fora da curva no quesito “pais”. Se existisse uma premiação para  
melhores pais do ano, ocupariam o primeiro lugar no pódio.  
Eu queria ter o poder de impedi-los de passar por isso. É terrível  
presenciar a única filha deles numa luta contra o câncer.  
Meus queridos pais foram pegos de surpresa pela notícia, já que o  
dia em que me acompanharam ao consultório do doutor Zhang,  
numa segunda-feira qualquer, foi exatamente o momento devastador  
em que o chão sob seus pés se transformou em areia movediça. Eles  
não tinham ideia dos meus sintomas estranhos. Nem mesmo do  
desmaio na universidade. Não sabiam de nada. Isso foi cruel da  
minha parte.  
Culpada!  
Os sintomas começaram no início de agosto.  
Eu estava tão esgotada das provas da faculdade que sequer pensei  
na possibilidade de estar doente. Atribuí o cansaço incomum e até  
mesmo os episódios de febre leve à rotina apertada. No início de  
setembro, o que eles chamam de sintomas B piorou : suores  
noturnos que me faziam trocar a camiseta no meio da noite, febres  
vespertinas sem motivo aparente e perda de peso sutil, mas  
progressiva, que fez com que Ludmilla notasse que havia algo de  
errado comigo.  
O episódio de desmaio na universidade veio no final de setembro,  
para complementar esse show de horror , e foi o suficiente para fazer  
Milla — minha melhor amiga, quase médica — ligar o alerta no seu  
cérebro de nerd e me obrigar a fazer uma consulta. Na primeira  
semana de outubro, passei com o Dr. Zhang. A biópsia confirmou:  
linfoma de Hodgkin clássico — subtipo esclerose nodular.  
E como se isso não fosse o bastante, a vida decidiu brincar comigo  
mais um pouquinho. Em meados de outubro, o PET-CT — um exame  
que mostra onde o câncer está ativo no corpo, destacando as áreas  
em que as células usam mais energia — revelou linfonodos  
comprometidos: cervical, mediastinal e abdominal.  
Estágio III.  
Ok. OK. Até aqui, uma montanha-russa que só desce.  
No final de outubro, meu médico fez avaliações cardíacas e  
pulmonares, planejou a quimioterapia e, com um olhar sereno e  
confiante, me deu expectativas de remissão.  
Remissão…  
Cura.  
Minha vida de volta. Era tudo o que eu queria.  
Sendo assim, acreditei . Confiei.  
Antes de atender aos pedidos insistentes dos meus pais e me  
mudar para Belo Horizonte, onde, de acordo com eles, eu poderia me  
tratar em uma das melhores clínicas e com um respeitável  
oncologista — o doutor Zhang — passei alguns dias no meu antigo  
apartamento (um dos muitos imóveis do meu pai), em Juiz de Fora,  
que ele gentilmente cedeu e que eu dividia com as minhas duas  
melhores amigas: Sthela e Ludmilla.  
Me mudei para Juiz de Fora há três anos para cursar bacharelado  
em Cinema e Audiovisual, que sempre foi o meu sonho de criança. Lá  
eu tive o prazer de conhecer Sthela, após um ano vivendo a fase mais  
introspectiva e sem sal de toda a minha vida. Eu a conheci no  
segundo ano da faculdade, enquanto fazia cosplay de Carrie, A  
Estranha. Não que eu sofresse bullying e, para me vingar,  
desenvolvesse poderes telecinéticos e matasse todos. Não era isso. Eu  
só era fechada e tímida demais. Calada ao extremo. Na faculdade de  
cinema, isso pode ser um problema.  
Sthela surgiu para me tirar desse limbo de esquisitona, e  
rapidamente nos tornamos almas gêmeas, inseparáveis. A amizade  
com Ludmilla — a nerd do nosso grupinho — veio depois, quando ela  
derramou sem querer um copo de chá gelado na minha blusa  
predileta. Meses depois, descobri que chá gelado, sabor Bubble Mix,  
era uma de suas bebidas favoritas da vida.  
O quase afogamento com chá gelado foi tão inesperado para mim e  
desconcertante para ela, que, na intenção de se mostrar arrependida,  
Milla disse que pagaria a lavagem da minha camiseta e que ela ficaria  
perfeita novamente. Após alguns segundos, sugeriu que poderia lavar  
a blusa para mim no banheiro feminino da universidade e que eu me  
surpreenderia com o quão boa ela era com produtos químicos e  
limpeza de manchas.  
Muito nerd.  
Fiquei tão chocada por conhecer uma pessoa claramente  
inteligente, engraçada e com pensamentos tão genuínos e, sem  
sombra de dúvidas, acelerados, que a minha única reação inicial às  
suas sugestões questionáveis foi erguer uma sobrancelha escura e,  
logo em seguida, sorrir.  
Abri um sorriso para ela, que retribuiu. Sthela apareceu uns dez  
minutos depois com uns bolinhos de chocolate para a discussão do  
livro O Sol é Para Todos, do nosso clubinho do livro com  
impressionantes duas participantes: eu e ela. Convidamos Milla para  
ir conosco, e ela logo aceitou.  
Naquele dia, nós três fomos a um café superfaturado e  
conversamos sobre as nossas vidas, interesses amorosos, desejos  
para o futuro, medos, frustrações e um milhão de outros aspectos da  
vida de jovens adultas.  
As conversas se tornaram tão intensas e, ao mesmo tempo,  
desconexas, que, quando percebemos, já falávamos sobre Augusto  
Nogueira, um garoto melequento e loiro que fazia bullying com  
Sthela no ensino fundamental e que ela, até hoje, não superou.  
É engraçado pensar que, desde aquela tarde qualquer em que uma  
garota de 1,80m de altura, com cabelos crespos volumosos, uma pele  
negra lindíssima repleta de tatuagens e um sorriso tão perfeito  
quanto o resto do seu rosto me deu um banho de chá gelado e  
aceitou, de bom grado, fazer parte de uma tarde com duas  
estranhas… minha vida social mudou drasticamente. Porque Milla e  
Sthela eram tudo de que eu precisava.  
Naquele mesmo dia, fizemos um grupo no WhatsApp, e isso foi  
mais que suficiente para desencadear uma discussão sobre qual seria  
o nome do grupo. Sthela sugeriu que fosse As Três Mosqueteiras, ao  
que Milla se recusou, insistindo que seria melhor se fosse um nome  
mais original, como o do seu desenho animado favorito da infância —  
As Três Espiãs Demais.  
Antes que as duas agarrassem os cabelos uma da outra naquele  
café chiquérrimo, repleto de pessoas que já nos encaravam mais do  
que o normal, eu não me abstive da discussão e reivindiquei o voto  
de Minerva. Escolhi As Três Mosqueteiras, mas só porque sou fã de  
Alexandre Dumas.  
E, nesta tarde de uma sexta-feira qualquer — as duas se tornaram  
minhas melhores amigas.  
Por essa razão, foi duro quando Sthela descobriu, há alguns meses,  
o câncer de pâncreas. Quando foi diagnosticada, já estava muito  
avançado. Não gosto de reviver aquele dia; o corpo lembra antes da  
mente. Ainda sinto, no fundo da língua, o gosto amargo que subiu  
quando ela disse a palavra câncer o dela , tão agressivo, tão  
rápido.  
Naquele dia, não sei bem como aconteceu. Em um segundo, Sthela  
nos contava sobre a doença dela e, no outro, eu já corria para o  
banheiro, tentando expulsar tudo que tínhamos comido horas antes.  
Na época, achei que tinha o estômago fraco para notícias fortes.  
Hoje, vivendo o meu diagnóstico, entendo que não era isso. A  
verdade é simples: eu não estava preparada para ver uma das  
pessoas que mais amo enfrentar aquele tipo de inferno. Porque  
enfrentar um câncer é uma batalha cansativa. E, no caso dela, era  
ainda mais cruel.  
Acompanhar a luta de Sthela de perto — ver as forças diminuírem,  
ouvir que o tratamento não estava funcionando, sentir o desespero  
quando ela se agarrava ao seu gatinho Cato para não desmoronar —  
foi como assistir alguém que você ama se apagar aos poucos. Às  
vezes ela dizia que já não tinha esperança.  
E eu entendia.  
Ver uma amiga como Sthela passar por isso dói como lâmina  
entrando devagar.  
Ninguém deveria enfrentar algo assim.  
Ela, menos ainda.  
Quando penso na Sthela com medo de perder a luta dela , sinto  
meu peito apertar. E, agora que carrego a minha , o medo só  
cresceu. Medo por nós três.  
Como vai ser se o nosso grupo se desfizer?  
Como vai ser para a Milla se acabar perdendo duas de suas  
melhores amigas?  
Será que ela vai chorar?  
Nunca vi a Milla chorar.  
Será que ela vai sofrer?  
Claro que vai. Que pergunta mais imbecil!  
Eu só espero que ela seja forte. Porque, no fim, parece que estamos  
perdendo.  
Eu e Sthela estamos perdendo para o câncer — cada uma à sua  
maneira, mas perdendo. Disso eu sei.  
CAPÍTULO TRÊS  
Por favor, me salva, Katniss!  
“A esperança é a única coisa mais forte que o medo.”  
— Presidente Snow, Jogos Vorazes, Suzane Collins  
Isso não está dando certo!  
— Ok, mãe. Agora me fala uma coisa que eu não sei?  
— Esmay… toda essa situação é embaraçosa.  
Eu a encaro por alguns segundos e depois desvio o olhar. Ela  
parece não se importar. Sendo bem sincera, mamãe nunca parece se  
importar com a minha indiferença velada.  
Isso já foi longe demais — pondera, irritada, um dos pés batendo  
no chão de porcelanato recém-polido num tique nervoso.  
— Mãe, você está falando alto demais. Quer logo um megafone? —  
repreendo-a.  
Ela bufa e prende os cabelos cacheados e limpos em um coque  
improvisado. O cheiro suave do shampoo — o mesmo que uso —  
chega até mim.  
Mamãe está há mais de vinte minutos caminhando de um lado  
para outro na sala de infusão, como se sua vida dependesse disso.  
Como se, para o sangue circular e o coração não parar, ela precisasse  
cumprir esse ciclo de vinte passos por minuto. Os saltos agulha  
vermelhos fazem toc, toc a cada passo.  
Vai me deixar maluca desse jeito.  
Ela desliza de uma extremidade a outra da sala com as mãos na  
cintura — postura rígida e, mesmo assim, absurdamente elegante.  
Ela é uma das mulheres mais atraentes que já vi. Meu pai também  
não é de se jogar fora. Mas é perfeitamente compreensível que toda a  
beleza que as pessoas insistem em ver em mim venha dela.  
Somos muito parecidas — sou sua versão mais jovem. Obviamente,  
uma versão menos comunicativa, mais séria, mais indiferente às  
vezes. Mas ainda assim, uma versão.  
Meu cabelo é uma das primeiras coisas que as pessoas notam. Os  
poucos caras com quem já saí sempre o elogiavam: cacheado,  
volumoso, cheio de movimento, com cachos definidos que moldam  
meu rosto e dão a ele um ar vivo.  
Meus traços delicados e os olhos castanhos também vieram da  
mamãe. E, para não dizer que meu pai ficou de fora na divisão  
genética, admito que o cromossomo Y dele fez sua parte ao me dar  
essa pele quente e uniforme. Uma contribuição pequena, mas  
estatisticamente relevante.  
O sorriso também. Como pude me esquecer? Devo a ele.  
O corpo esguio, naturalmente elegante, com curvas suaves e  
proporcionais, eu puxei da mamãe. Resumindo: sou a soma dos dois  
— mas muito mais parecida com ela .  
Dona René me observa com os olhos semicerrados, um quê de  
desafio pairando em seu rosto belo.  
Ah, mãe. Eu sou muito mais teimosa do que a senhora imagina.  
— Isso não está dando certo — repete, dessa vez com mais ênfase.  
E não paro de pensar que talvez ela esteja certa.  
Fecho os olhos e passo as mãos pela manta macia e esterilizada —  
espero que sim. Mas claro que sim. Disponibilizada pela clínica.  
Aconchegante este lugar.  
É quase irônico dizer que uma clínica oncológica é acolhedora  
quando, na realidade, existe uma dúzia de pessoas a poucos metros  
daqui lutando contra o câncer.  
Ainda assim, os profissionais se esforçam para que a nossa estadia  
— apesar de curta, em alguns casos — seja agradável, dentro do  
possível.  
Afundo-me ainda mais na poltrona creme e estico as pernas no  
apoio. Do canto do olho vejo meu MacBook, os fones e o Kindle sobre  
a mesa lateral de madeira.  
Todos inúteis no momento.  
Não sei se consigo ouvir música, mesmo que seja The Cranberries  
— minha banda favorita — nem escrever no meu diário ultra  
escondido, como se fosse uma agente secreta do FBI. Muito menos  
reler Jogos Vorazes pela milésima vez. Nunca sai de moda, né?  
Na verdade, não sei se consigo me concentrar em nada.  
Às vezes sinto a cabeça girar e, mesmo sentada nessa poltrona  
mais confortável que as do meu antigo apartamento em Juiz de Fora,  
não consigo racionalizar meus pensamentos. Parece que meu cérebro  
é feito de algodão.  
— Está me ouvindo, Esmay? — pergunta minha mãe.  
Ela não parece se importar com a presença da enfermeira. Não que  
seja esnobe: está apenas nervosa demais com toda essa confusão e  
não consegue ser gentil. Ao menos não comigo .  
A enfermeira, Simone, veio pela segunda vez checar a velocidade  
da bomba e o frasco de dacarbazina — não tira os olhos dele.  
Dacarbazina é um dos medicamentos do protocolo ABVD. Um  
quimioterápico que danifica o DNA das células do linfoma e impede  
que elas se multipliquem. Ela arde. Arde mesmo. É lenta porque, se  
correr mais rápido, minhas veias literalmente reclamam.  
Simone me observa por alguns segundos.  
Parece ter seus vinte e poucos anos. Pele negra, cabelos cacheados  
com mechas vermelhas presos em um coque perfeito. Os olhos tão  
escuros que mal diferencio a íris da pupila. Uma das enfermeiras  
mais gentis daqui. Sempre conversa comigo sobre livros e música  
quando pode.  
Ela é muito bonita. Poderia facilmente ser modelo.  
— Qualquer náusea diferente, me chama — orienta com voz suave.  
— Obrigada — respondo. Ela sorri e se afasta.  
E então começa a guerra fria de olhares entre mim e minha mãe.  
Eu só queria pegar o Kindle, ler até o fim da infusão — que pode  
durar mais uma hora, talvez uma hora e meia — e fugir mentalmente  
para Panem . Mas mamãe está irredutível. Quer falar. E vai falar.  
Agora.  
Foi mal, Katniss Everdeen.  
Hoje não será o dia em que vou te ver irritando o escroto do  
Presidente Snow pela septuagésima vez.  
— Posso te fazer uma pergunta, Esmay?  
Agarro o Kindle e os fones. Por favor, me salva, Katniss!  
— Você vai… me responder?  
— Você ainda vai fazer — digo.  
— O quê? — Ela franze a testa, confusa, e logo o semblante irritado  
volta ao normal.  
— Caso eu diga que não quero responder — explico —, a senhora  
vai perguntar mesmo assim. Então vá em frente. Pergunte.  
Ela se aproxima com agilidade. Quando percebo, está a  
centímetros do meu rosto. Observo o soro descendo pelo Port-a-  
Cath. Primeira dose do segundo ciclo da quimioterapia.  
Esmay Elizabeth.  
— Ah, mãe!  
Ela revira os olhos. Minha mãe é teimosa e astuta. Eu também sou.  
Aprendi com ela.  
— Você devia contar — adverte, com as mãos apoiadas na cintura.  
Bufo e balanço a cabeça. Ela repete a frase como um mantra. Sua  
obstinação é impressionante e inspiradora até. Em qualquer outro  
dia, seria uma cena quase épica de vê-la defendendo algo com tanta  
força.  
Só que hoje não é um bom dia.  
— Tem que contar a elas, Esmay.  
— Mãe… por favor. Pare.  
Ela resmunga algo como “você não pode ser tão egoísta, né?”.  
Nem levanto os olhos.  
Releio o mesmo parágrafo do livro Em Chamas , catatônica — um  
adjetivo preciso para meu torpor.  
É a parte em que Katniss visita o Distrito 11 e encara os familiares  
de Rue e Thresh.  
Rue — tão jovem, tão doce.  
E ainda assim, Katniss não pôde salvá-la.  
Lamento por Katniss, por Peeta, por Rue. Deslizo os olhos pela  
cena em que a presença da família dos tributos mortos pesa sobre  
Katniss como uma ferida que não cicatriza.  
A tristeza da mãe de Rue, dos irmãos, é viva, queimando devagar e  
Katniss se sente pequena e completamente impotente. Tudo que fez  
parece insuficiente diante daqueles olhos que ainda procuram a filha  
no mundo.  
Uma dor lenta.  
Uma dor conhecida. Terrível.  
E então me pego pensando: por que diabos estou sofrendo por  
personagens fictícios quando minha vida já é uma tragédia grega em  
andamento?  
Você já não tem problemas demais, Esmay ?, penso.  
Finalmente olho para mamãe. Seus olhos castanhos, iguais aos  
meus, observam meu rosto. Um sorriso fraco aparece em seus lábios  
pintados de vermelho-vinho. Murmuro um “desculpe”, meio  
desajeitado. Ela acena com a cabeça.  
Preciso parar de ser imbecil com as pessoas ao meu redor.  
Preciso parar de ser idiota com os meus pais.  
Com minha mãe.  
Só… preciso parar.  
Ela desliza as mãos pelos meus braços nus e eu fecho os olhos.  
Respiro fundo uma, duas vezes.  
Ela massageia minha bochecha com o polegar. Olho pelas janelas  
amplas da sala de infusão. Quero tocar as rosas do jardim lá fora.  
Respirar o ar úmido, sentir cheiro de terra molhada.  
Está chovendo. Ah…  
Quero sentir as gotículas na pele, no cabelo.  
Mas não posso. Preciso ficar aqui enquanto meu corpo recebe  
outra enxurrada do protocolo ABVD.  
O Dr. Zhang explicou que, para o meu tipo de linfoma — clássico,  
subtipo esclerose nodular, estágio III — esse é o tratamento padrão.  
Quatro medicamentos que trabalham juntos para destruir as células  
espalhadas pelo mediastino, pelo pescoço, pelo abdômen. Funciona  
muito bem na maioria das pessoas, é o mais eficaz para controlar e,  
com sorte, curar.  
Mas cada ciclo leva o corpo ao limite: cansa, corrói o estômago,  
causa alopecia, rouba o ar.  
Rouba até a esperança — se eu não me policiar.  
Estou no segundo mês dessa guerra química e parece que cada  
gota entrando pelo Port-a-Cath arranca um pedaço de mim.  
E, por Deus, se minha mãe continuar com o discurso de que devo  
contar para as minhas duas melhores amigas sobre o diagnóstico,  
sou capaz de arrancar todos os fios do meu cabelo antes mesmo que  
a químio faça isso por mim.  
— Esmay, eu espero que você me perdoe pelo que fiz — diz ela,  
ainda acariciando meu rosto. Prende uma mecha atrás da minha  
orelha. Para ela, ainda sou uma garotinha. A sua garotinha. — Sei  
que não tenho o direito de me intrometer na sua vida ou decidir por  
você, coisas que você tem plena capacidade de decidir sozinha.  
Franzo a testa e mordo a parte interna da bochecha.  
Onde ela quer chegar?  
— Não quero que você se arrependa de uma escolha estúpida.  
Então eu tomei a frente.  
— Tomou a frente? Eu não… — gaguejo. Ela tira a mão do meu  
rosto. Uma sirene dispara na minha cabeça. Não. Ela não fez isso. —  
Mãe…  
Respiro fundo.  
— O que você fez?  
— Fiz o que era certo.  
— Mãe… — Tento me levantar, mas ela coloca as mãos nos meus  
ombros e me guia de volta para o encosto. O mundo gira, as luzes  
piscam. — Você não tinha esse direito.  
— Eu sei — admite, com um fio de voz.  
— Sabe? Sabe mesmo? — pressiono. — Eu só precisava de mais  
tempo. Só isso.  
— Filha, o seu tempo é precioso. Não desperdice.  
— Meu Deus, mãe! Você não tinha o direito de fazer isso. A escolha  
é minha! — esbravejo, fazendo um movimento com os braços que me  
faz ficar tonta. — Era minha escolha. Minha decisão.  
— Ludmilla e Sthela têm o direito de saber que você está doente,  
querida — rebate, e eu percebo que os seus olhos estão tristes. O  
rosto cansado, as olheiras profundas. — Você entende o peso dessa  
decisão?  
Sou uma pessoa horrível.  
— Entendo, mãe. — Ela abre a boca para falar e depois fecha.  
Continuo: — Eu ia contar quando estivesse pronta e eu sei que  
parece ridículo, escroto e egoísta da minha parte. Eu sei…  
— Esmay…  
— … Mas não pode continuar agindo como se eu já não fosse uma  
mulher adulta. Posso tomar decisões por mim mesma, sobretudo as  
difíceis. Não pode sair por aí assumindo a frente das minhas coisas.  
Precisa me deixar resolver minhas próprias questões sozinha, mãe!  
— Filha, você já está na primeira rodada do segundo ciclo de  
quimioterapia — pondera. — Percebe isso? Já se passaram quase  
dois meses desde o diagnóstico, e você ainda acha que não é o  
momento?  
Balanço a cabeça, em irresignação. Ela me observa mais  
intensamente. Os lábios franzidos denunciando o tamanho da sua  
cautela quando diz:  
— Percebe o quão problemático é tudo isso?  
Percebo, mãe.  
Seria uma tola se não admitir que isso consome quase toda a  
minha cabeça e se não consumisse, eu me preocuparia seriamente  
com a integridade do meu sistema neural.  
Mas sempre tem uma fagulha de vontade que me obriga a proteger  
os sentimentos das minhas amigas. Por isso precisava — preciso —  
de tempo.  
Abro a boca. Nada sai. Pareço um robô danificado.  
— Sinto muito, Esmay.  
Ela solta minha mão. Sinto um aperto no peito difícil de suportar,  
e o calor do seu toque reconfortante vai embora.  
— Ligue para as suas amigas. Elas estão aguardando.  
— Mamãe, eu…  
— Você precisa delas mais do que nunca agora.  
Uma lágrima desliza pela minha bochecha. Limpo com o dorso da  
mão. Um soluço me sacode.  
Minha mãe é uma mulher forte. Entretanto, sei que está sofrendo.  
Isso a fez prescindir do que ela mais valoriza, que é a confiança que  
as pessoas depositam nela. A que depositei nela. Passou por cima de  
toda a sua moral e ética para tentar fazer com que sua filha doente e  
agora depressiva enxergasse um mundo onde existam cores.  
Esperança.  
— Elas também precisam de você, meu amor — sussurra. — Por  
favor, por favor, não se abstenha.  
Ela me olha nos olhos mais uma vez, com uma feição que diz:  
“Tudo bem. Vai ficar tudo bem.”  
Sinto um frio intenso e paralisante quando ela se afasta antes que  
eu perceba, como uma aparição.  
Mamãe se retira da sala de infusão, onde a vida parece se  
comportar de maneira intrigante. Os sons são mais altos, os cheiros  
mais fortes, o perfume de lavanda oriundo do desinfetante usado  
mais cedo na limpeza do chão, o aroma de chá e café inundando  
minhas narinas, penetrando em minha mente, transportando-me  
por alguns segundos para Tiradentes (a cidade natal da minha avó  
paterna), onde vivi uma parte da minha infância doce e afetiva…  
Todas essas sensações e sentimentos me fazem fechar bem os meus  
olhos e suspirar profundamente.  
Antes de sair pela porta de madeira, ela deposita um beijo  
molhado em minha bochecha, a saliva se misturando com as nossas  
lágrimas salgadas. Ela acaricia meus cachos, beija minha testa e  
então cantarola, me ninando durante algum tempo, balançando o  
meu corpo com cuidado e amor.  
Mamãe cantarola baixinho, uma canção que costumava cantar pra  
mim quando eu era criança.  
Sinto saudades da minha infância.  
Quantas saudades sinto da minha infância em Tiradentes.  
— Olha, se você preferir, eu falo para elas não tocarem no assunto  
— diz ela baixinho, segurando com força a barra da sua blusa azul-  
marinho. Suas mãos estão tremendo e eu não consigo parar de  
olhar… para isso . — Se for necessário, eu nem toco no assunto. Você  
escolhe, Esmay.  
Assinto com a cabeça.  
Ela se afasta, deixando-me sozinha, divagando sobre as minhas  
opções, afogando-me em minha culpa. Arregalo os olhos e pisco  
várias vezes. A respiração pesa, presa na garganta como um nódulo.  
Quero dizer que ela não tinha esse direito; no entanto, as palavras  
somem.  
Fico abalada com a constatação de que a minha mãe escondeu  
muito de mim. Me sinto invalidada e dilacerada por ela passar por  
cima da minha escolha e contar sobre o meu diagnóstico sem o meu  
consentimento. Abdicar do que ela mais preza, que é a confiança  
entre nós, diz muito sobre as circunstâncias que estamos vivendo no  
momento.  
Engulo a saliva e a revolta que estou sentindo, tentando não  
parecer insegura. Não gostaria de tomar essa decisão agora, tão  
rápido. Minha mãe me ajudou e eu sei disso. Mas isso não anula o  
fato dela ter tomado algo muito valioso para mim, a minha escolha, e  
ter exposto a minha condição médica antes que eu mesma estivesse  
pronta para fazer isso sozinha.  
E mesmo que eu não queira admitir, parte de mim entende. Ela me  
empurrou para um precipício do qual, cedo ou tarde, eu teria que me  
aproximar.  
Me obrigou a olhar lá embaixo e enxergar o abismo.  
Mas pular ainda é comigo.  
Fecho os olhos com força por alguns segundos e respiro fundo,  
sentindo uma gama de sensações e sentimentos em meu âmago:  
raiva, mágoa, tristeza, gratidão, confusão.  
— Eu tenho medo — digo, por fim, com uma voz pequena.  
O barulho das vozes se unem ao som da chuva lá fora e quanto  
mais contemplo o teto com forro de gesso e as luzes amarelas que  
iluminam o ambiente e dão um charme acolhedor a esse lugar, sinto  
meu peito apertando, devagarinho.  
— Preciso falar com as minhas amigas — sussurro.  
Quem sabe assim… eu finalmente acredite que isso tudo é real. E  
não apenas fruto da minha criatividade exagerada.  
CAPÍTULO QUATRO  
Não minta para mim, nunca.  
“Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo:  
o sol, a lua e a verdade.”  
— Buda  
— Elizabeth?  
Milla é a única que me chama de Elizabeth quando quer que eu  
preste atenção.  
— Elizabeth?  
Ela me chama pela quarta vez, acho.  
Não respondo.  
Fico completamente paralisada. Meus olhos castanhos observam  
com clareza as minhas duas amigas mais próximas na  
videochamada, mas não consigo falar. Socializar. Minha língua se  
transformou em um emaranhado de fios complexos e difíceis de  
desatar.  
Eu sou uma bagunça.  
— Elizabeth? — repete. — Travou a ligação, será? — pergunta a  
Sthela.  
Sthela não diz nada, mas imagino que balance a cabeça em  
negação, ao que Milla prontamente entende como uma deixa para  
tentar, de novo, uma conexão comigo. Estou tão perdida que, neste  
momento, isso é tudo de que preciso.  
Esses últimos dias foram intensos e repletos de reviravoltas em  
relação à minha condição médica. Optei por não ter muito contato  
com minhas amigas, já que estava escondendo delas a minha  
doença… e, por esse motivo, sempre arranjava uma desculpa para  
não conversar por videochamada. Assim, passamos quase dois meses  
tendo somente o prazer de ouvir as vozes umas das outras. A de  
Sthela, nem sempre. Nas últimas semanas, ela estava preferindo  
falar apenas por mensagem. Acho que entendo o porquê.  
— Esmay?  
Essa voz… Sthela.  
— Olhe para mim, querida.  
Sthela sempre teve uma voz firme e gentil na mesma medida.  
Ouvi-la chamar meu nome e me transmitir a segurança de que  
necessito… presenciar sua calma e controle emocional, mesmo  
diante de tanta pressão… vê-la resiliente — uma de suas  
características mais marcantes — e me fazer entender que ela é forte,  
mesmo quando o corpo tenta convencê-la do contrário… tudo isso  
me faz pensar que eu preciso enfrentar essa situação que me causa  
medo, mas nunca permitir que o medo decida. Não posso me dar ao  
luxo de fugir desse sentimento difícil que insisto em guardar no meu  
coração e que me sufoca, me adoece. Tenho que encarar, processar e  
seguir em frente.  
— Me deixe olhar para você — diz, com uma voz trêmula. — Ver  
seus olhos  
Meu coração se estilhaça. Como chegamos a isso?  
E então, como se fosse mágica, uma das boas, meus olhos se  
concentram em um ponto fixo na tela. Eu a vejo. Tão frágil.  
Olho para ela. Olho de verdade.  
O sorriso que abri por alguns segundos se dissolve quando  
contemplo: os olhos azuis límpidos e grandes, apagados, como se  
tivessem perdido todo o brilho. Os lábios estão brancos, e a pele  
pálida se opõe ao vermelho sangue do papel de parede logo atrás de  
sua cabeça. Dói na alma quando observo suas bochechas, antes  
angulosas e coradas, agora com os ossos mais evidentes. Ela usa um  
lenço em um tom de azul-claro, que combina com a cor de seus  
olhos. Sthela ouve baixinho uma música muito parecida com Up The  
Junction , de Squeeze — a música tema do nosso trio. A voz do  
vocalista me transporta para uma lembrança distante: o dia em que  
ouvimos a música juntas no nosso antigo apartamento. Considero  
aquele um dos momentos mais especiais da minha vida.  
Ela continua me encarando, assim como Milla, como se pudessem  
ouvir o zum-zum-zum sem nexo da minha cabeça. Um silêncio se  
instala entre nós, e era mesmo de se esperar que algo assim  
acontecesse.  
— Me desculpa — soluço, escondendo o rosto.  
Sinto uma pontada no meu Port-a-Cath e penso ter machucado.  
Não. Foi só impressão minha. Mas sinto uma dor lancinante no  
peito e o peso do mundo nos meus ombros, me obrigando a curvá-  
los. Um buraco no meu estômago se forma, como se fosse me partir  
ao meio. Respiro fundo, mesmo de forma desajeitada, e com o rosto  
ainda entre as mãos trêmulas, murmuro novamente: “desculpe,  
desculpe, desculpe.” Insistentemente. Vergonhosamente.  
As vozes das pessoas vindas do corredor, fora da sala de infusão, e  
o barulho insistente de passos me conectam à realidade.  
A náusea volta a se formar na boca do estômago e agora ouço, mais  
forte, o barulho da chuva lá fora.  
— Está tudo bem, Esmay — diz Sthela, tentando me tranquilizar.  
Quero dizer que não está. Mas não consigo. Minha respiração está  
entrecortada e a dor no peito continua me sufocando.  
Continuo com o rosto entre as mãos, incapaz de encarar minhas  
duas melhores amigas. Sinto vergonha por ser tão egoísta a ponto de  
esconder meu diagnóstico. Elas mereciam saber, e eu insisti em não  
contar. Fiz isso na intenção de poupá-las. Não queria ser eu a infligir  
sofrimento às duas. Ainda assim, agora percebo que não fez  
diferença alguma.  
Porque eu vejo. Eu sei e sinto no âmago do meu ser — como um  
vírus difícil de curar: ambas estão sofrendo.  
Quero poder dizer a elas que vou ficar bem. Que esse meu novo  
jeito não passa de uma reação ao tratamento e à doença. O fato é que  
nem eu mesma pareço acreditar nessa falácia.  
— Me desculpa — repito.  
Ergo finalmente meu rosto, molhado pelas lágrimas, e devo estar  
horrível, porque Milla está com as sobrancelhas tão levantadas que  
quase se juntam à raiz do cabelo. Os olhos repletos de  
complacência… e ali há muito, muito amor .  
— Para, Elizabeth — implora Milla, levando uma das mãos aos  
cabelos cacheados. Sinto uma pontada no coração ao ouvir a falha  
em sua voz. Ela está segurando o choro?  
— É sério — insisto.  
Milla balança a cabeça.  
— Eu sinto muito. Muito mesmo. É só que…  
Sthela não diz nada dessa vez.  
Apenas me observa com as sobrancelhas franzidas e um olhar tão  
sereno que esqueço o que estava dizendo. Ela é como uma noite de  
verão sob o luar: tranquila, gentil.  
Quero poder dizer que sinto muito por todas as mentiras.  
Respiro fundo e agarro a manta macia que me protege do frio da  
sala de infusão. Já estou quase finalizando a medicação. É agora ou  
nunca.  
Antes que eu comece a explicar como tudo aconteceu e os motivos  
que envolveram a minha decisão contraditória de esconder o câncer,  
a enfermeira volta para a checagem padrão do frasco de Dacarbazina  
e, com um sorriso gentil, anuncia que a infusão chegou ao fim.  
Fico constrangida, porque, se antes minhas amigas tinham dúvidas  
sobre a gravidade da minha doença, agora podem tirar suas próprias  
conclusões. E Milla, como um modelo perfeito de aluna excepcional,  
certamente fará suas próprias resoluções. Posso ver as engrenagens  
se movimentando em sua mente de nerd: seus olhos escuros ficam  
vivos, calculando probabilidades, diagnósticos…  
O quanto a minha mãe contou? Não faço ideia.  
— Quem disse “frasco de Dacarbazina” e por quê? — indaga Milla,  
com as sobrancelhas franzidas.  
— O-o quê? — rebato, ansiosa. Tenho vontade de arrancar os meus  
olhos ao perceber que as engrenagens em sua mente se movimentam  
ainda mais rápido, lubrificando lugares onde antes não havia  
movimento, chegando a resultados, afirmações, constatações críveis.  
Corretas .  
— Alguém disse: “frasco de Dacarbazina.” — Ela afirma, pensativa.  
— Eu ouvi perfeitamente. Quero saber quem disse e por quê,  
Elizabeth. Não minta para mim. Nunca.  
Ela é inteligente o bastante para deduzir. Na realidade, Milla é  
brilhante.  
Uma quase médica de 23 anos que tinha o sonho de se especializar  
em Oncologia. Desistiu quando viu crianças demais enfrentando o  
câncer e morrendo. Sem parar. Nenhuma pessoa deveria passar por  
isso, sobretudo uma criança.  
“Eu não dou conta disso. Prefiro me especializar em Neurologia a  
ter que ver isso todos os dias.” Foi o que ela confidenciou a mim e a  
Sthela.  
Ludmilla sempre foi a mais racional do grupo: observa primeiro,  
fala depois, e quando fala, acerta geralmente o ponto-chave. A gente  
brincava dizendo que escolher Neurologia foi quase um destino  
natural. Depois que ela desistiu da Oncologia pelo peso emocional,  
percebeu que precisava de uma área em que sua inteligência pudesse  
brilhar sem a destruir por dentro. A Neuro foi a escolha perfeita.  
Milla tem um fascínio indescritível pelo cérebro humano e fala disso  
com brilho nos olhos.  
É nostálgico lembrar…  
Quando fazíamos algo que a irritava, ela nos ameaçava dizendo  
que, um dia, abriria nossas cabeças para estudar nossos cérebros.  
Affs. Macabra, né?  
Eu sempre ria dessa piada — acho que era uma piada. Espero que  
sim.  
Já Sthela costumava arregalar os olhos azuis de maneira  
exagerada. Era divertido, admito. Bons tempos.  
— Sua mãe nos disse que você está doente. Não sei ao certo o  
quanto você está doente a ponto dela ter que nos contar e não você.  
Isso tudo me parece muito estranho. Porque isso, amiga? Eu  
simplesmente não entendo… Ela não disse muita coisa, na verdade —  
divaga Milla, com o dedo indicador no queixo. Mesmo na  
videochamada, sou capaz de ver as tatuagens de ramos de lavanda  
contornando seus dedos. — Onde você está agora, Elizabeth?  
Sua voz se eleva, um tom mais agudo.  
Observo Sthela, que está com aparência de alguém exaurida  
mental e fisicamente. Essa conversa não é saudável para ela.  
— Estou em um hospital — respondo, em voz baixa e contida.  
Preciso ir com calma. Devagar. Por mim. Por elas.  
— Sei que esse lugar é um hospital. Passo, em média, 60% do meu  
dia neles para não reconhecer um.  
Ah…  
Ela suspira pesadamente e remexe no piercing do lábio inferior —  
um comportamento típico de quando está nervosa.  
— Passo muito tempo em contato com enfermeiras também.  
Ela amarra os cabelos crespos em um coque desajeitado. Quando  
faz isso, sei que chegou a uma conclusão. Adora fazer esse  
movimento nas suas defesas de pesquisas científicas, que eu e Sthela  
já tivemos o prazer de assistir.  
— E posso afirmar com segurança que estou mais do que  
familiarizada com… procedimentos padrão de… quimi…  
— Ela quis saber em qual sala, ou melhor, em qual ala você está —  
interrompe Sthela.  
Então nossos olhos se encontram, dizendo milhões de coisas em  
poucos segundos.  
Fico catatônica, de novo. Se transformou em algo corriqueiro, ao  
que parece.  
— Esmay, por favor. Para — exige Sthela.  
Parar?  
— Sim.  
Ela se remexe, ajeitando a postura na cama. Um gemido escapa de  
sua garganta, e ouço o miado de Cato, que agora está perto dela,  
empoleirado em suas pernas. Vejo a pontinha do rabo rajado.  
— Não precisa tentar disfarçar — aconselha Sthela.  
Eu me contorço na poltrona, ansiosa . Nervosa.  
— Eu não…  
— Sim, você está . E eu , como alguém que sabe o que é, posso te  
adiantar: isso não funciona. Não mesmo.  
Ela tosse, levando as mãos esguias ao peito. Outro gemido.  
A enfermeira me encara, com as sobrancelhas franzidas. Ela não  
aparece na ligação e não tenho como fazer isso seguir por outro  
rumo.  
Ela murmura um “sinto muito” baixinho e então se move para o  
campo de visão das minhas amigas. Fala quase num sussurro —  
humana, sensível:  
— Prontinho, Esmay. Vou fazer o encerramento da infusão e  
retirar o acesso do seu Port, tá?  
Minhas amigas me observam em silêncio. Em seguida, Simone  
higieniza o local com técnica precisa e faz o flush com soro fisiológico  
para garantir que o cateter fique limpo. Então posiciona os dedos  
com firmeza.  
— Pronto, respira fundo — orienta, com voz suave.  
Sinto uma pressão rápida e, num movimento seguro, a agulha sai.  
Odeio essa parte às vezes. Ela aplica uma leve compressão com gaze  
estéril e coloca um curativo pequeno.  
— Seu Port-a-Cath ficou perfeito hoje, sem nenhuma resistência —  
comenta com um sorriso gentil. Olho para Milla e Sthela e vejo o  
queixo das duas praticamente no chão. — E lembra: em casa você  
não precisa mexer no Port, tá? Nada de limpar, manipular ou trocar  
curativo sozinha.  
Eu sei. Isso é sempre com eles. E, mesmo que eu quisesse, não  
conseguiria. Não sou boa com isso .  
Assinto com a cabeça, com um sorriso fraco. Ela retribui e vai  
embora.  
Meu corpo começa a pesar com a fadiga típica da quimioterapia e o  
enjoo persiste.  
Maldita Dacarbazina!  
— Me desculpa — sussurro, com a cabeça baixa.  
Meu vocabulário agora se resume a apenas uma coisa: “me  
desculpa”, pelo visto.  
— Ah, meu Deus! Não… — diz Milla.  
Sua mão livre — a que não está ocupada segurando o celular —  
cobre os lábios no mesmo instante, abafando uma sucessão de “ah,  
meu Deus”, enquanto seus olhos se arregalam como nunca vi. Nem  
mesmo quando ela abriu o ateliê de macaron, que funcionava no  
quarto vago do nosso antigo apartamento, e no primeiro dia de  
vendas recebeu tantas encomendas no iFood que prometeu pagar um  
jantar para nós três no nosso restaurante preferido.  
— Como eu não percebi isso? Como? Eu sou a pior amiga médica  
que já existiu na face da terra! — grita. — Eu… estava tão ocupada  
com a minha própria vida e os meus problemas que não fui capaz de  
perceber que…  
Milla começa a andar em círculos, sabe-se lá onde ela está. O lugar  
ao fundo é repleto de peças de artesanato, quadros de paisagem  
pintados a óleo, prateleiras com livros e velas aromáticas. Bem a cara  
dela mesmo.  
— Você não sabia, Milla. Como poderia? Eu menti sobre… —  
soluço, e as lágrimas começam a ganhar forma nos meus olhos  
castanhos. A visão embaçada e o choro engasgado me fazem entrar  
em desespero. — Me desculpa! Eu sou uma amiga horrível, uma  
mentirosa, uma egoísta… então, se vocês…  
— Esmay — diz Sthela.  
— … quiserem me odiar pelo resto de suas vidas e não suportarem  
mais o peso que é a minha amizade, eu vou entender…  
Elizabeth… — é a vez de Milla me chamar, com uma voz  
chorosa.  
— Porque eu sou chata e esquisita e às vezes não sou do tipo que  
gosta de falar sobre sentimentos. E, se as pessoas já me achavam um  
pé no saco antes, e preferiam a amizade de vocês à minha, vão se  
surpreender com o quanto eu aumentei — ou melhor, quadrupliquei  
— meu nível de antipatia por pessoas, por conversas profundas…  
Estou depressiva, eu acho.  
Não. Tenho certeza.  
Elizabeth.  
Milla chama meu nome mais uma vez. Eu pareço não me importar,  
mas me importo. Muito.  
Solto uma risada fraca que faz minha garganta arder. Meus lábios  
tremem copiosamente. Olho pela janela e, enquanto vejo a chuva  
molhando o jardim de rosas, sinto as lágrimas molharem meu rosto.  
Sinto-me como uma rosa sendo encharcada por essa água salgada.  
Uma rosa, com espinhos e tudo.  
— Então, se quiserem me odiar, eu juro que vou entender —  
finalizo com a voz rouca e a garganta dolorida. Minha cabeça gira e,  
graças a Deus, estou sentada. Minhas pernas estão moles, bambas,  
como geleia.  
— Elizabeth, você não precisa se desculpar. Nós somos suas  
melhores amigas. Somos uma equipe, não somos? — pergunta Milla.  
— Só põe pra fora, amiga. — Dessa vez é Sthela quem assume a  
conversa. — Já chega de se esconder, Esmay. Diz.  
Eu tenho câncer.  
Foi rápido.  
Quando eu disse.  
Primeiro veio o medo e a ansiedade, por pensar que elas poderiam  
se sentir magoadas por eu esconder o diagnóstico por tanto tempo.  
Elas demonstraram várias expressões faciais em um curto espaço  
de tempo: susto, medo… até beirou um ressentimento por alguns  
segundos, e então eu vi . Estava lá, naquelas duas faces. Nos olhos  
azuis de Sthela, no rosto delicado de Ludmilla: ambas compreendiam  
minha escolha. Não havia pena, nem raiva. O que havia era a  
representação clara do mais genuíno amor. Havia compaixão e  
gentileza — as duas ao meu alcance.  
Como pude ficar tanto tempo sem isso? Como pude pensar que  
conseguiria enfrentar essa luta sozinha?  
Afinal, as mães sempre têm razão.  
Eu preciso das minhas duas pessoas preferidas.  
Para alguém que não gosta muito de pessoas, percebo agora: eu  
preciso do apoio, da força e da companhia das minhas duas melhores  
amigas.  
Na verdade, sempre precisei.  
CAPÍTULO CINCO  
Que letra de música horrível  
Sozinho aqui na cozinha, sinto que falta algo. Eu imploraria por perdão. Mas implorar  
não é minha praia.  
Up The Junction — Squeeze  
UM ANO ATRÁS  
Mortas de fome.  
Fome por macarons. Coisa fina. Eu e Sthela éramos isso: duas  
mortas de fome por aqueles biscoitinhos coloridos, rechonchudos e  
deliciosos que nossa brilhante amiga Ludmilla produzia no seu  
tempo livre, entre ser uma heroína da medicina e da neurologia, uma  
atleta, melhor amiga e uma maluca fissurada por alta confeitaria.  
Chique.  
— Que droga! Vocês vão acabar com todos os macarons antes  
mesmo de eu finalizar o recheio? Parem já, as duas! — repreendeu  
Milla, entre dentes.  
Eu e Sthela prendemos a respiração por alguns segundos, nos  
encarando. No entanto, era inevitável. Uma guerra de recheio de  
chocolate começou, porque as duas cuspimos tudo o que estávamos  
mastigando, tentando segurar a risada.  
— Vocês são duas idiotas! — Milla chacoalhou as mãos e apertou o  
laço do avental. — Vão sujar todo o meu ateliê desse jeito. Cuspindo  
todo o recheio uma na outra. Vocês são nojentas. Um quilo desse  
chocolate que vocês estão deliberadamente cuspindo — fiquem à  
vontade, aliás — custa mais de cem reais!  
Eu e Sthela continuamos nos encarando, as bochechas inchadas de  
tanto segurar o riso.  
— Sabiam? — perguntou, a ninguém em especial.  
— Ah! Suas duas riquinhas de merda! — esbravejou, indo em  
direção ao fogão para mexer o recheio de morango que estava  
fazendo.  
— Ei! Assim você me magoa — digo, rindo, levando uma das mãos  
ao peito e fazendo cara de dor. — Poxa! Não precisa ser assim tão  
malvada.  
Milla revirou os olhos e bufou, segurando uma colher de pau que,  
por Deus, eu esperava que não acertasse nossas cabeças.  
Sthela e eu nos encaramos e, dois segundos depois, caímos na  
risada novamente.  
Milla é chata e mandona quando o assunto é o seu ateliê de  
macaron.  
— Vocês são nojentas — repetiu Sthela, imitando o jeito mandão e  
inflexível de Milla falar. Ela fez um biquinho enquanto dizia,  
esnobando Milla: — Vão sujar todo o meu ateliê desse jeito!  
Milla fechou a cara no mesmo instante.  
— Se vocês não pararem de encher o meu saco, vou expulsar as  
duas do meu ateliê.  
Sthela revirou os olhos e eu reprimi uma risada.  
— Quero acabar as minhas produções hoje o mais rápido que  
conseguir. Tenho prova da Liga de Neurologia amanhã. É um  
absurdo o tanto de coisa que eles cobram… e se as duas idiotas  
continuarem a bagunçar o ateliê, estragarem o recheio de chocolate  
— fazendo guerra de cuspe — e comerem os macarons que eu coloco  
na bancada… Ah, eu juro: vou matar vocês eu mesma, abrir as suas  
cabeças de vento, estudar seus cérebros e depois doá-los para a  
evolução da ciência.  
Milla é tão inteligente e macabra. Na mesma medida.  
— Rá! — pulei em sua direção e ela se encolheu, assustada ou…  
brava. Os dois, quem sabe? — Viva a ciência, as mulheres nas áreas  
STEM e todo o avanço da neurociência! — gritei, com as duas mãos  
levantadas, enquanto Sthela apenas sorria da cara engraçada que  
Milla fazia. — O quê? Pode fazer o que quiser com meu cérebro,  
amiga. Eu sou a maior defensora da ciência neste recinto.  
Ela ergueu uma sobrancelha, ao passo que Sthela falou algo como  
“ui, Milla”, sorrindo. Não sei muito bem. Não me lembro.  
Pigarreei depois de Milla dar dois passos em minha direção com os  
seus 1,80 metros de altura contra os meus 1,57 metros. Droga!  
Recuei um passo e ela avançou mais dois. Assustadora.  
— Não antes de você — corrigi. — Eu quis dizer que sou a maior  
defensora da ciência, depois de você. Claro!  
— Você se acha bem engraçadinha, não é, Elizabeth? — perguntou  
Milla, com a panela fumegante de recheio de morango em uma das  
mãos.  
O vapor da panela se misturava ao ar frio do ateliê. O aroma doce  
do morango inundou minhas narinas, assim como o cheiro cítrico do  
limão que ela havia espremido para rechear uns macarons em tom de  
verde-oliva. Lindos e saborosos.  
Espero que ela deixe a gente lamber a panela depois.  
— Não acho, não — provoco. — Na verdade, eu sou bem sem  
“gracinha”.  
— Ah, tá — resmungou Milla, ao que Sthela completou: — Esmay,  
você é engraçada, sim. Seu senso de humor não é forçado, é só…  
excêntrico?  
Dei de ombros, divertida.  
Milla me dirigiu um sorriso sarcástico e então se ocupou em  
continuar a sua produção de macarons, já que daqui a algumas horas  
teria que assumir o papel de heroína da medicina de novo. A nossa  
heroína. Uma vida puxada, uma rotina apertada, mas que eu sabia  
que ela amava.  
— Beleza, é o seguinte — disse Sthela, sentando no banco de  
madeira maciça e apoiando as mãos no balcão em que estavam  
dispostos os macarons em diferentes tons. Minha cor preferida, sem  
dúvidas, eram os macarons com sabor de limão. Eles tinham um tom  
de verde, e essa é minha cor favorita. — A gente tá quase terminando  
a faculdade e eu acho que já está na hora da gente bolar um plano.  
— Um plano? — perguntei, enfiando na boca um macaron verde e  
soltando um suspiro demorado. Mesmo sem o recheio, já estava  
muito gostoso.  
Milla me direcionou um olhar do tipo “vou te matar se pegar mais  
um”, e eu fiz um bico, fingindo estar triste.  
Sentei-me no banco do outro lado da bancada, de frente para  
Sthela, que se revezava entre acessar o Spotify e mudar a música que  
estávamos ouvindo e escolher qual seria o próximo macaron que iria  
devorar. Milla seguiu recheando-os e resmungando uma coisa ou  
outra sobre como ainda faltavam muitos para ela produzir.  
— Tira a mão, Sthela! — reclamou Milla, ao que Sthela deu um  
muxoxo e um dar de ombros, teatral.  
Ela deveria seguir carreira de atriz em vez de ser diretora, aliás.  
Mas era o sonho dela e também o meu. Sonhávamos em sermos  
parceiras em grandes projetos que nos fariam ficar muito famosas  
como diretoras de cinema. Ah… não é impossível. E, mesmo que  
meus pais tenham muita grana — o suficiente para não saberem o  
que fazer — dinheiro não compra talento, compra oportunidades.  
O talento, já tínhamos. Faltava a oportunidade.  
— Você está com os cotovelos praticamente grudados nos  
macarons de morango!  
— Não tô não, sua chata. Caramba! — exclamou Sthela. — E  
“praticamente” não é “totalmente”. Tem uma grande diferença,  
sabichona .  
— Tá sim — retrucou Milla. — Meu Deus! Essa minha produção de  
hoje não está nada higiênica. Sério. Culpa das duas.  
Nossa ? — falamos em uníssono.  
Milla revirou os olhos e passou a língua pelos dentes.  
Adorava aquele apartamento, aquele quarto reserva que servia de  
ateliê e o cheiro dos macarons, que podíamos comer quantos  
quiséssemos nos dias em que Milla não estava de mau-humor.  
Óbvio. Era tudo perfeito. Nossa vida era perfeita.  
— Voltando ao assunto, Sthela.  
Ela me encarou com um sorriso enquanto roubava um macaron  
rosa da bancada. Milla acertou um tapa em sua mão e ela quase  
engasgou, com o susto. Coitada.  
— Esse tal plano seria sobre o quê exatamente? — perguntei,  
curiosa. Eufórica.  
— Sobre continuarmos a morar juntas — respondeu ela, com um  
sorriso brilhante, de orelha a orelha, enquanto dava a primeira  
mordida no macaron que havia roubado.  
Seus cabelos pretos e lisos estavam com um novo estilo: um corte  
Hime Cut — um estilo de cabelo japonês tradicional que dispunha  
de franja reta na altura das sobrancelhas e mechas laterais curtinhas,  
na altura do queixo, contrastando com o resto do cabelo, que  
continuava longo. Uma hora ou outra, ela sacudia os cabelos como  
uma cantora de rock famosa. Ela continuou:  
— Quero continuar morando com vocês. Mesmo depois da  
faculdade. E aí, topam?  
Eu e Milla nos entreolhamos e depois olhamos para Sthela. Dois  
segundos depois, nos entreolhamos de novo.  
— O quê? — indagou Sthela, de olhos semicerrados.  
Rugas quase imperceptíveis se formaram ao redor dos seus olhos  
azuis, e as sobrancelhas escuras arqueadas deixaram o motivo da sua  
expressão ainda mais óbvio: insatisfação.  
— Não acredito que, em um grupo com três pessoas que  
prometeram amizade eterna e essa ladainha toda, eu fui a única que  
pensou a respeito.  
Eu também já havia pensado muito a respeito. Não queria me  
separar das minhas duas melhores amigas. Mas, depois que a  
faculdade chegasse ao fim, trilharíamos rumos diferentes: Milla, com  
toda certeza, continuaria avançando na sua carreira de médica e  
fazendo especialização em neurologia e, quem sabe, até pós-  
graduação. Teria uma jornada árdua pela frente, na qual teria que  
abdicar de muitas coisas. De uma coisa eu sei: ela não abdicaria da  
nossa amizade.  
Sthela tinha planos de mudar para São Paulo, porque lá haveria  
mais oportunidades para a nossa área. Convenhamos, cinema não é  
como direito ou medicina, que você consegue se virar em qualquer  
lugar e arranjar um emprego. Precisaríamos estar em um estado  
onde fosse mais viável trabalhar com isso.  
Ir em busca de oportunidades.  
Como eu disse, modéstia à parte, de talento nós entendíamos.  
Éramos resilientes, nos arriscávamos em nossos projetos, tínhamos  
originalidade, estilo próprio e muita dedicação. Mas isso não era o  
suficiente. Para ser artista no Brasil, você precisa sempre de mais.  
Mais visibilidade, mais público, mais coragem para ter sucesso ou  
fracassar e, principalmente, mais e mais… oportunidade.  
Não queria ter que depender da grana dos meus pais por mais  
tempo. Só que, se eu quisesse sobreviver depois da faculdade com  
um bacharelado em cinema e audiovisual… sejamos sinceros: teria  
que continuar recebendo a ajuda deles. Assim como Sthela, que  
também recebia ajuda financeira dos pais.  
— Não é uma má ideia — digo, por fim. As duas me encaram,  
ansiosas pela minha opinião. — Eu poderia falar com o meu pai… Se  
quiséssemos morar mesmo em São Paulo, ele poderia nos arranjar  
um apartamento semelhante a esse lá. Meu pai tem muitos contatos.  
E a gente não precisaria se preocupar com a grana nem com  
alimentação…  
— Esmay… — Milla me interrompeu, desamarrando o avental da  
cintura e tirando os cabelos cacheados e volumosos da sua toquinha  
branca. — Já somos adultas. Eu já sou adulta. Não dá pra ficar  
dependendo da generosidade dos seus pais. A gente tem que  
conseguir se virar. Sozinhas.  
Concordo.  
Mas como eu e Sthela faríamos isso finalizando um curso que não  
tem muito mercado no Brasil? Sim, Milla não tem culpa de termos  
cursado cinema em vez de algo que desse grana rápido. Mas era o  
nosso sonho. Só que até eu sabia que sonho não colocaria comida na  
nossa mesa.  
— A gente pode trabalhar enquanto não consegue algo na nossa  
área — sugeriu Sthela, e eu aquiesci com a cabeça. Milla levantou  
uma sobrancelha. — Eu não tenho problemas com isso.  
— Nem eu. Tô de boa com isso — complementei, encarando Milla,  
que olhava de mim para Sthela com uma cara que dizia “me engana  
que eu gosto”. Tudo bem. É compreensível. — A gente pode se virar  
sozinha. Nós podemos fazer isso.  
— Certo. E de quê exatamente as duas princesas vão trabalhar em  
São Paulo? Em algum shopping como vendedoras, na Crocs, ou será  
que fazendo Subway? Ou talvez queiram trabalhar na praça de  
alimentação servindo mesas?  
Nós não respondemos.  
— Sério, meninas! Vida de CLT não é pra vocês. E outra: seus pais  
têm grana. Usufruam disso a favor de vocês a todo custo. Mas não  
precisam estender isso a mim.  
— Não é esmola, Milla — argumento, irritada. Ela baixa os olhos. —  
Meu pai nos ajuda porque ele é assim e quer o melhor pra mim. Mas  
não pense nem por um segundo que isso não se estende às minhas  
amigas. Que não se estende a você .  
Ela ainda não estava me olhando. Encarava um macaron  
rechonchudo, em tom azul-bebê, que havia ficado um pouco  
disforme nas laterais. Em um mundo repleto de macarons lindos e  
perfeitos, ele era a maçã podre, triste e defeituosa. Sozinho .  
Milla era extremamente perfeccionista, e eu sabia que esse  
macaron não seria vendido para os seus clientes. Ela daria um jeito  
de se livrar dele.  
— Pega — disse ela, oferecendo-me o macaron defeituoso e  
solitário. — Pra você. Come!  
Estendi a mão para pegá-lo, ainda encarando minha amiga, que  
permanecia com uma expressão indecifrável. O silêncio durou alguns  
segundos, e meus sentidos se aguçaram ainda mais. O silêncio  
costumava fazer isso comigo. Deslizei os dedos pelas laterais  
desajeitadas do doce e senti as deformidades em contato com a  
minha pele. Inspirei o aroma agradável dos macarons que estavam  
quase prontos no forno, e o cheiro adocicado de morango ainda  
parecia preencher cada superfície daquele cômodo da casa. Era  
agradável aquela sensação. Gostosa.  
Mordi o primeiro pedaço e senti o sabor açucarado e delicado  
inundar o céu da minha boca.  
— Obrigada. — Ela sorriu. — Isso é uma metáfora, por acaso?  
— Quê?  
Sthela ergueu uma sobrancelha, e Milla continuava a me encarar,  
com as mãos fechadas em punho no balcão repleto de doces.  
— Você não é defeituosa, Milla. Para de bobagem e deixa a gente se  
ajudar. Não precisa ser durona o tempo todo. Eu quero — declarei,  
com os olhos brilhantes e um sorriso. — Quero… continuar morando  
com vocês até o momento em que cada uma construa a sua família.  
— É isso que vocês querem, de verdade?  
Milla olhou de mim para Sthela, e nós consentimos.  
— Tem certeza de que o seu pai concordaria com isso, Esmay? —  
indagou ela, ainda encarando os macarons como se eles pudessem  
responder por mim. — Digo… comigo e com a Sthela morando em  
São Paulo, dividindo apartamento com você… e sendo, sei lá…  
sustentadas por…  
— Milla — a interrompi, suave. — Meu pai não é esse tipo de  
pessoa, sério. E ele não vai sustentar ninguém. Ele só vai dar uma  
ajuda inicial, um empurrãozinho. Chame do que quiser. Mas não vai  
bancar o nosso futuro nem pagar as nossas contas pra sempre.  
Ela respirou fundo.  
— E você sabe que a gente vai trabalhar, né? — perguntou Sthela  
rapidamente.  
— Com o quê? — Ela franziu as sobrancelhas e pressionou os olhos  
com a palma das mãos. — De verdade, gente. Não quero iludir vocês.  
Vida de CLT não é simples.  
Sthela cruzou os braços, séria:  
— A gente começa de baixo, como todo mundo.  
— E onde? — Milla insistiu. — Em São Paulo tem trocentas  
meninas com diploma, igual a vocês, procurando um trabalho.  
— Sim, de fato — concordei. — Mas lá tem agência grande,  
produtora grande, festival, edital, Netflix, Amazon… Olha, aqui em  
Juiz de Fora e BH não tem metade disso, amiga.  
Dessa vez, Milla me encarou. Um pouco tensa demais para o meu  
gosto.  
— Além disso… — continuou Sthela — o pai da Esmay pode ajudar  
a gente a investir no nosso primeiro curta. Ele prometeu que, quando  
chegasse a hora, nos patrocinaria. Meu pai também pode ajudar. E  
não seria ele bancando a nossa vida, mas um projeto. Um só. — Ela  
sorriu, e os olhos brilharam. — O pontapé. A gente faz o curta, entra  
em festival, cria portfólio. A gente consegue, não é, Esmay?  
Eu assenti.  
— É assim que funciona no audiovisual, Milla. Todo mundo  
começa produzindo um curta pra existir no mapa. Não é demérito,  
sabe… ter um patrocinador.  
Milla apertou os lábios e, num movimento furtivo, levantou-se do  
banco onde estava, recolocando a sua touca nos cabelos cacheados  
para voltar ao trabalho.  
— E eu ? Onde entro nessa equação?  
— Você entra em São Paulo — eu disse, sorrindo de canto e me  
levantando também. — Porque as melhores residências de  
neurologia do país estão lá.  
— É, Milla — Sthela também se levantou, fazendo barulho com o  
banco. — Você mesma vive dizendo isso. USP, Paulista, Santa Casa…  
Não é basicamente, sei lá, seu sonho?!  
Ela piscou, surpresa e eufórica na mesma medida.  
— Eu sei que você consegue passar quando prestar a prova pra  
residência — pontuei.  
— Claro que consigo. Eu sou brilhante, não sou?  
Sim. Ela era brilhante.  
— Ok. Vocês têm razão. Faz sentido… ficar com vocês.  
Meu peito aqueceu.  
— Então… é isso. Vocês duas podem tentar emprego em loja,  
shopping, restaurante… qualquer coisa até conseguirem entrar em  
alguma produtora.  
Sthela deu risada enquanto mudava a música no Spotify.  
— Eu preferiria morrer a trabalhar na praça de alimentação do  
Morumbi, mas, né? O capitalismo obriga.  
— Eu não tenho frescura — disse, e ela balançou a cabeça.  
Milla respirou fundo e correu na direção do forno para retirar os  
macarons que já estavam prontos. O cheiro que veio dessas  
belezinhas… uma delícia.  
— Tá. Se é isso mesmo que vocês querem e se estão dispostas a  
batalhar mesmo, então eu topo!  
O sorriso que brotou no rosto de Sthela e que se refletiu no meu foi  
automático, quase infantil. Sthela contornou o balcão e correu em  
direção a Milla, que já havia colocado a travessa de macarons recém-  
assados no balcão.  
— Quero continuar com vocês, meninas — sussurrei. — Até cada  
uma construir a própria família.  
Milla pegou um macaron, perfeito dessa vez, e colocou na minha  
mão como se fosse um pacto.  
— Então a gente vai juntas. Para São Paulo.  
Sthela mexia no celular, distraída, até soltar um “ai, meu Deus…”  
baixinho.  
Ela virou a tela pra gente.  
O Spotify mostrava o início familiar no teclado de “Up the  
Junction”.  
— Lembra, Esmay?  
— Ah, meu Deus! “Up the Junction”! — gritei. — Faz muito tempo  
que não ouço essa música. Ela é estranha de um jeito muito bom.  
— Que música de letra esquisita — disse Milla, com um sorriso  
cansado nos lábios. — Gostei.  
— O cara perde tudo e fica sozinho por fazer escolhas ruins —  
pontuou Sthela. — A letra é bem melancólica, e a vida dele é cheia de  
reviravoltas… todas ruins.  
— Sim. Eu adoro essa música. Deixa tocando. Não tira, não — pedi.  
Fechei os olhos, e a melodia da música me teletransportou para  
outro lugar. Senti uma paz que nunca havia sentido. Foi bom.  
Respirei fundo, como se essa sensação tivesse destravado alguma  
coisa dentro de mim.  
— Então é isso, né? — disse Sthela. — A gente não vai deixar  
ninguém… up the junction. Nunca! Seremos sempre a válvula de  
escape umas das outras.  
E, naquela frase, eu senti: era um pacto . E era sério.  
CAPÍTULO SEIS  
Essa é a pele de um matador, Bella.  
“Eu não posso carregar isso por você… mas posso carregar você.”  
— O Senhor dos Anéis  
— Fala sério, Sthela!  
— Quê?  
— A gente devia procurar outra coisa pra assistir que não sejam  
essas porcarias sem sentido com sanguessugas pálidas e que brilham  
sob a luz do sol — diz Milla enquanto suga o canudo do seu chá  
gelado.  
É. Milla tem razão, como sempre. Mas Crepúsculo é a saga de  
filmes predileta de Sthela. Droga! O que eu posso fazer? Só… me  
torturar assistindo pela centésima vez. Porque é isso que boas amigas  
fazem: permitem que os seus olhos sangrem assistindo a essa  
esquisitice que é Crepúsculo.  
— Cala a boca, Milla! — repreende Sthela, com uma voz áspera e  
fraca. — Como sempre, suas opiniões sobre Crepúsculo são de muito  
mau gosto.  
— Vampiros… que brilham? Quem teve essa ideia e pensou logo  
em seguida: “É. Acho que vampiros que brilham sob a luz do sol, ao  
invés de vampiros que entram em combustão e morrem, seria muito  
mais interessante”?  
— Stephenie Meyer talvez?  
— Eu sei quem escreveu Crepúsculo, Elizabeth.  
Ah! Tudo bem. Só pra conferir.  
— Pelo amor de Deus! É patético! — grita.  
Infelizmente, Bram Stoker deve estar se revirando no túmulo  
neste exato momento. Coitado.  
— Brilham como fadas — digo baixinho, enquanto remexo na barra  
da calça jeans.  
— Quê? — pergunta Sthela. — Não, Esmay… você também não.  
Não se deixe contaminar pelo mau gosto da Milla.  
— Rá! Parece até piada. Você é fã de Crepúsculo e a pessoa com  
mau gosto sou eu?  
Ergo uma sobrancelha para fazê-la fechar o bico. A luz do quarto  
de Sthela está fraca, o ambiente sendo iluminado apenas por alguns  
piscas-piscas com luzes em tom amarelo, já que vamos assistir a  
Crepúsculo. Mesmo não estando tão claro quanto eu gostaria, sei que  
Milla consegue ver a carranca no meu rosto.  
Entretanto, isso não é o suficiente para fazê-la calar a boca.  
— Vampiros não deviam ser assustadores ? — pergunta a ninguém  
em especial, enquanto gesticula freneticamente com as mãos. Seu  
anel de besouro brilha no escuro. — Isso é uma vergonha. Sério! Não  
tô a fim de assistir a Crepúsculo pela milésima vez, Esmay.  
Sthela pigarreia baixinho e se força a dar um sorriso, divertida.  
— Você é sempre do contra, não é? — debocha, e Milla ergue uma  
sobrancelha escura. — Sempre reclamando. Sempre. Seu nome  
devia ser Maria das Dores.  
— Ela adora ser a protagonista! — completo, e Milla se contorce  
ainda mais, o rosto transformando-se em uma careta estranha. — A  
vez de escolher o filme é da Sthela. É assim que funciona a noite do  
cinema democrático.  
— Ah, fala sério! — resmunga Milla, e eu a encaro, séria.  
— Aliás, não foi você quem escolheu esse nome? Tá querendo  
mudar o nosso regime para uma ditadura, por acaso? — pergunto.  
— É, sua fascista! — concorda Sthela, e eu abro um sorriso largo.  
Milla não responde, mas revira os olhos como nunca a vi fazer  
antes. Tão dramática.  
— Caramba! Certo. É a vez de Sthela escolher, eu sei. Mas, ainda  
assim, segue sendo um filme horroroso e, apesar de você cursar  
cinema — aponta o dedo indicador na direção de Sthela —, isso não  
te impede de ter um péssimo gosto pra filmes.  
— Pega leve com ela — digo, e ela sorri descaradamente,  
mostrando os dentes.  
— Claro. Porque você e os seus filmes eróticos são muito melhores,  
não é, Milla? — retruca Sthela, e eu reprimo um sorriso.  
— Uau! Você é tão…  
Incrível? — interrompe Sthela, e Milla faz uma careta,  
levantando o dedo do meio.  
Tão infantis.  
— Ok. É o seguinte: chega dessa discussão idiota e sem sentido. As  
suas predileções cinéfilas não vão mudar em uma noite, então isso —  
gesticulo na direção das duas — é contraproducente. Não adianta. —  
Me viro na direção de Sthela: — A gente pode assistir aos seus filmes.  
Ela me encara, e seus lindos olhos azuis brilham, mesmo estando  
tão escuro.  
— Só… por favor. Vamos assistir à Lua Nova?  
Sim. Eu prefiro o Jacob. Um milhão de vezes, e isso não é uma  
hipérbole.  
— Não suporto mais a cara de fome do Eduardo.  
É Edward.  
— Eu sei.  
Dou de ombros e lanço um sorrisinho cúmplice na direção de  
Milla, que leva as mãos aos lábios, abafando uma gargalhada.  
Tudo bem assistir a Crepúsculo e ver todas as cenas  
constrangedoras, como a de Bella encarando Eduardo esquisito cara  
de fome Edward, ou a cena ridícula em que ele diz: “Essa é a pele de  
um matador, Bella” … Ok. Tudo bem assistir a isso. Eu aguento.  
Mas, hoje não tô no clima. Prefiro que o Jacob tenha um tempo de  
tela.  
Sthela está com o controle na mão, navegando pelo catálogo da  
Netflix, procurando o seu filme preferido da vida. Seus dedos longos  
digitam com dificuldade, e, quando ela demora mais alguns  
segundos para achar a vogal “o”, que completa a palavra Crepúsculo,  
eu a ajudo, tirando gentilmente o controle de suas mãos geladas.  
— Tudo bem — digo. — Deixa comigo, amiga.  
Ela sorri.  
Seus olhos se fecham quando ela tenta mudar a posição em que  
estava, levantando um pouco mais a cabeça. Seu gatinho, Cato, está  
empoleirado entre ela e Milla, ronronando e se lambendo hora ou  
outra. Ele não sai do lado de Sthela, nem mesmo enquanto ela  
dorme. Parece que são feitos da mesma matéria. Metade um do  
outro.  
Ela tenta achar uma posição mais confortável, e alguns gemidos  
abafados escapam de sua garganta. Eu e Milla tentamos ajudá-la ao  
mesmo tempo. Só que eu me sinto um pouco exausta da  
quimioterapia. Ultimamente, tenho tido falta de ar e tosse seca. Isso  
me deixa irritada. Milla me lança um olhar que diz “deixa comigo.  
Relaxa, eu faço isso” , e eu aquiesço com a cabeça e murmuro um  
“obrigada” para ela, que retribui com um sorriso.  
Milla consegue ajudar Sthela a achar a posição que procurava, e ela  
agradece.  
A condição de Sthela piorou muito nos últimos dias.  
Mesmo tendo sido quase impossível para Milla vir para Belo  
Horizonte nos visitar, ela fez o que pôde. Largou os conteúdos que  
precisava estudar e diversas outras coisas da sua vida corrida em Juiz  
de Fora. Eu havia falado com ela há alguns dias, informando-a de  
que a condição de Sthela estava se complicando, e ela não hesitou em  
vir correndo nos ver e dar o seu apoio. Eu as amo  
incondicionalmente. Somos as três, de novo. Estava com saudades  
disso. De nós.  
— E então… pode ser Lua Nova , Sthela?  
Ela faz que sim com a cabeça, e ambas sorrimos.  
— Ok. Vamos de Jacob, então, ao invés de Eduardo!  
— É Edward, sua engraçadinha.  
— Eu sei — afirmo, dando de ombros. — Mas isso é irrelevante.  
Sorrio.  
Ela solta algo que pode se configurar como um grunhido irritado  
ou até mesmo o barulho de algum animal raivoso — e eu não saberia  
dizer a quem pertence. Não importa. Ela parece confortável, segura  
de si e é a pessoa mais resiliente que já tive o prazer de conhecer.  
Eu sei, Sthela . Mas não consigo evitar tentar fazer você sorrir.  
Mesmo exausta de lutar, você ainda é tão forte e corajosa. Amo isso  
em você.  
Amo mesmo.  
Cansaço e tosse seca.  
Esses dois se tornaram meus melhores amigos agora. Caminham  
comigo enquanto dirijo, leio — e releio — alguns projetos, ou quando  
tento subir as escadas da clínica oncológica nos dias em que o  
elevador está cheio. Não chegam a me derrubar, mas também não  
me deixam esquecer que estão ali. Persistentes. Incômodos . Isso me  
atrapalha e também me irrita de uma maneira com a qual não estou  
conseguindo lidar.  
— Já falou com o seu médico a respeito? — pergunta Milla com a  
boca cheia de bolo de cenoura, alguns dias antes da minha consulta  
com o doutor Zhang. — Não pode deixar passar nada, Elizabeth. Ele  
é seu médico. Vai saber o que fazer.  
— O que você acha que pode ser? — pergunto.  
Ouço o barulho de um sino tocando e giro o rosto na direção da  
entrada do café. Mais pessoas chegando, socializando . Dezembro  
costuma fazer isso com todos.  
Em cima do balcão de atendimento, meus olhos castanhos se  
detêm em uma caixa vermelha com os dizeres: faça uma doação .  
Logo abaixo, em letras menores: Dezembro pede gentilezas.  
Mordo um pedaço do meu bolo de chocolate e bebo um gole do  
suco de acerola.  
Milla balança a cabeça e morde a parte interna da bochecha,  
fazendo com que eu me encolha em minha insignificância. Tudo  
bem.  
— Sabe que não posso sair por aí dando diagnósticos ou fazendo  
suposições — responde, com as sobrancelhas franzidas e uma  
expressão de cautela.  
Ok. Ela tem razão.  
Olho ao redor, e as pessoas estão felizes , vivendo suas vidas  
plenas, com filhos e pets livres de qualquer preocupação infeliz . O  
café Flor de Parênteses , que costumávamos frequentar nas férias da  
faculdade quando vínhamos visitar nossos pais em BH, segue  
idêntico ao de antes. A iluminação natural suave da manhã entrando  
pela janela, o silêncio confortável, o aroma de café passado na hora  
mesclado ao cheirinho de terra molhada. Ao fundo, sem muito  
exagero, é possível ouvir a música Muda Tudo , do Dani Black,  
cantor preferido de Sthela. Ela sempre pedia para repetir quando  
tocava.  
Eu e Milla estamos sentadas, uma de frente para a outra, numa  
mesa de madeira reaproveitada belíssima, idêntica a todas as outras  
espalhadas pelo salão. No centro da mesa encontra-se uma muda de  
zamioculca, com as folhas num tom de verde brilhante, e um  
pequeno livro de poesia, escrito à mão. No passado, eu, Sthela e Milla  
passávamos horas declamando as poesias desse mesmo livro para os  
outros clientes — uma velha tradição que adquirimos — e fazendo os  
olhos de Laurina, a proprietária do café, se encherem de lágrimas.  
Ela é uma mulher baixinha, com noventa por cento do corpo  
coberto por sardas. Entusiasta de poesia. Toca o café e cuida de  
quase tudo sozinha. Ela se vira bem, porque faz tudo com zelo e  
amor: desde a venda de seus exemplares de poesia até a rega, no  
meio do expediente, das mudas de diversas plantas, como espada-de-  
são-jorge, samambaias, orquídeas  
perfeitamente saudáveis.  
e
suculentas  
todas  
Eu me recordo de tudo… exatamente assim.  
A mesa comunitária perto das plantas, quase sempre repleta de  
gente; as cadeiras que não são iguais, mas igualmente bonitas; o  
cheiro do bolo de milho e dos doces; os vários tipos de bebidas —  
tudo parece igual. Talvez eu tenha mudado.  
Milla estala os dedos na frente do meu rosto. Eu devia estar em  
transe, porque ela continua mexendo a boca loucamente, o piercing  
dourado no lábio inferior movendo e brilhando enquanto fala coisas  
que não consigo ouvir. Foco, Esmay.  
— Você não ouviu uma sílaba do que falei, não é?  
Tento parecer ofendida, mas ela percebe.  
Merda! Sempre tão observadora.  
— Eu perguntei se você concorda que a Jennifer Lawrence teria  
feito uma Bella Swan melhor do que a Kristen Stewart em  
Crepúsculo .  
Ah… Nossa! Quê?  
— Eu sequer sabia que… — pigarreio. — Não fazia a menor ideia de  
que ela havia feito teste para Crepúsculo — finalizo, dando mais um  
gole no meu suco.  
Milla chacoalha as mãos e se força a engolir o bolo para falar com a  
boca menos cheia.  
— Quem diria, hein? Ela levou um não gigantesco logo de cara!  
Não respondo. Continuo mastigando meu bolo, séria. Sem graça.  
Depois, pego um dos inúmeros guardanapos com frases motivadoras  
de Laurina e passo a brincar com ele.  
— O que você tem? — pergunta ela. — Está estranha desde que a  
gente chegou. Está preocupada com a Sthela ou com… você?  
Milla suspira e limpa a boca usando um guardanapo coach com a  
frase: “Não é hora para chorar. Você está vivo. Sorria.”  
Abro um sorriso mostrando todos os dentes, só para testar.  
Continuo triste. Milla percebe e leva uma das mãos até a minha, na  
intenção de me acalmar.  
— Esmay… vai ficar tudo bem.  
— Eu sei. Claro, me desculpa. É só que… — murmuro, fazendo o  
origami de sapo que finalizei há poucos minutos pular de um lado  
para o outro da mesa. Sthela que me ensinou. Neste mesmo café. Em  
uma manhã igual a esta. Ela é fascinada por esses bichinhos feitos de  
papel. Muito mais habilidosa do que eu jamais serei. Obviamente.  
— O quê? — indaga Milla suavemente. Seus olhos acompanham os  
movimentos do pobre sapinho de papel.  
— Eu fico nervosa. Estou sempre nervosa, para falar a verdade. E  
eu não sei se isso é só coisa da minha cabeça, mas parece que eu não  
estou melhorando. Estou sempre cansada, sempre estranha… eu…  
Milla ergue uma sobrancelha.  
— É compreensível — diz. — Você está fazendo quimioterapia com  
um coquetel de quatro drogas, Esmay. Seu corpo só está  
respondendo aos efeitos colaterais da medicação. Nada de novo sob o  
sol.  
— Está tentando me matar, isso sim — resmungo, irritada.  
— Certo. Se isso te incomoda tanto, não pode deixar de relatar ao  
velho.  
— Não chama ele assim…  
Ela sorri e me lança uma piscadela.  
— Tudo bem. Precisa contar tudo para o doutor Zhang Wei.  
Melhorou?  
— Não é como se eu me importasse muito, para falar a verdade.  
— Você sabe que ele é tipo uma lenda para mim, não é? Uma  
referência. Meu sonho era ser orientada por ele na faculdade. Mas  
justo quando chegou a minha vez de ser médica, o cara decide que é  
hora de parar de lecionar. Sério! Sorte de quem trabalhou com ele.  
Sabia que o doutor Zhang só escolhia os mais brilhantes para  
orientar? Quase ninguém conseguiu ter ele como orientador.  
— Ok. Parece que eu e você não estamos falando da mesma pessoa  
— digo, divertida. Ela revira os olhos. — O doutor Zhang é…  
— O quê?  
— Não sei… esquisito?  
— Gênios podem mesmo ser esquisitos, Esmay — responde, com  
uma entonação de quem está dando uma bronca.  
— Sei que sim. Mas, claro, ele é um excelente médico. Quanto a  
isso, não posso reclamar. O doutor Zhang tem sido essencial no meu  
tratamento. Ele me passa muita segurança — pontuo.  
Ela assente com a cabeça, sorridente.  
— Então ele é tipo um dinossauro da medicina? — pergunto.  
— No bom sentido da palavra?  
— Isso.  
Mais uma fatia de bolo de chocolate na boca.  
— No bom sentido da palavra, Ludmilla. Claro. Para você e para a  
comunidade científica, ele é tipo um gigante da medicina?  
— Sim. Ele é tipo um tiranossauro rex da medicina — retruca com  
um sorriso, enquanto se levanta e dá soquinhos no ar. — Espera…  
esse foi o maior dinossauro que já existiu, não é?  
Ela tamborila os dedos na mesa da cafeteria, e sua xícara de café  
tilinta suavemente. Dou mais uma mordida no bolo de chocolate, não  
antes de ouvi-la falar com uma voz estridente:  
Não é? — insiste, ansiosa. — Do período Paleolítico , talvez?  
Ah, meu Deus.  
Arregalo os olhos, surpresa. Ok. Ela é brilhante em medicina, mas  
história não é mesmo o seu forte.  
— Para a sua informação — digo, levantando o dedo indicador —, o  
maior dinossauro que já existiu, conforme as evidências mais aceitas  
atualmente, foi o Patagotitan mayorum .  
Milla ergue uma sobrancelha, como quem diz “tá, mas como você  
sabe disso?”.  
— Ele foi um dinossauro herbívoro e viveu no período Cretáceo.  
Ela ergue ainda mais a sobrancelha.  
Ah, e só para constar — continuo —, o Paleolítico faz parte da  
história humana . Dinossauros viveram muito antes, na Era  
Mesozóica. Quando o primeiro humano apareceu, eles já tinham  
desaparecido havia milhões de anos. Misturar as duas coisas é como  
confundir a Roma Antiga com a Segunda Guerra.  
— Certo — diz ela, erguendo ainda mais as sobrancelhas. — Você é  
bastante esquisita, Esmay.  
— Sempre gostei de estudar história — digo, dando de ombros.  
Dou uma piscadinha, e ela sorri, intrigada.  
— Eu sempre fui péssima em história — admite.  
— Não diga…  
— Não precisa humilhar — brinca, me olhando nos olhos. — Mas,  
voltando ao assunto: não deixe de comunicar tudo o que está  
sentindo ao doutor Zhang. Cada detalhe importa, Elizabeth.  
Eu sei.  
As tosses secas, sem catarro ou dor, que não melhoram com água  
ou pastilha; a falta de ar ao subir escadas e pegar pesos mínimos; um  
cansaço desproporcional, que não melhora com descanso… Sem falar  
no desconforto torácico que sinto com frequência. Um peso no peito  
que parece me sufocar às vezes.  
Tudo isso vem acontecendo desde a segunda infusão do primeiro  
ciclo de quimioterapia, de forma gradual. No começo, achei que fosse  
só o acúmulo. O corpo cansando de lutar.  
Mas esse tipo de cansaço me parece estranho. Não parece normal.  
A tosse não dói. Não arde. Não avisa.  
O pior não é tossir. É perceber que subir um lance de escadas virou  
um pequeno evento. Que preciso parar. Fingir que estou olhando o  
celular. Respirar fundo como quem não quer chamar atenção.  
Começo a suar frio, e quanto mais tento controlar a respiração, mais  
parece que estou entre a vida e a morte. Tento não pensar onde ,  
exatamente, isso tudo está acontecendo dentro de mim. É um  
inferno , e geralmente as pessoas percebem. Oferecem ajuda,  
perguntam se estou bem e, como eu não possuo nenhum senso de  
preservação, digo que sim. Que estou ótima.  
Não sei por que meu corpo resolveu me testar assim agora. Só sei  
que não era assim antes.  
Na próxima consulta, vou comentar com o doutor Zhang. Nem  
para reclamar — mais para registrar. Como quem deixa uma  
observação na margem de um livro.  
Relaxa , Esmay — tranquiliza Milla.  
Eu sorrio de leve e volto a brincar com o sapinho de origami. Meu  
coração aperta no peito. Não pode ser nada demais, não é?  
— Vai dar tudo certo. Não sei por que a gente ainda não falou a  
respeito… mas vamos continuar com a nossa tradição de final de ano.  
Nós vamos viajar no Natal pra Tiradentes. A gente consegue levar a  
Sthela. Podemos falar com o Doutor Zhang . E eu — Milla bate o  
dedo indicador no queixo, — devo dar para o gasto. E aí? Está  
ansiosa?  
Eu, ansiosa para o Natal? Acho que não… Tudo o que sinto agora  
é medo, para ser sincera. Talvez o Natal deste ano não seja tão  
divertido como foram os anteriores, afinal. Para alguém que sempre  
adorou essa data comemorativa, estou muito para baixo.  
Uma pena mesmo.  
Droga! Sim.  
Hoje é um excelente dia para o elevador estar lotado. Sou obrigada  
a pegar as escadas e aturar meu corpo praticamente entrando em  
colapso só por estar subindo alguns lances. Respiro com dificuldade,  
e a impressão que tenho é a de que meu coração está pegando fogo.  
Tento controlar a respiração e ouço meu coração batendo forte nos  
ouvidos, como um lembrete de que estou forçando demais meu  
corpo. Minhas pernas estão meio moles, sem atender plenamente  
aos comandos do meu cérebro.  
Ok, Esmay. Só não inventa de desmaiar agora, porque não seria  
uma cena bonita.  
Meu celular vibra no bolso da calça jeans, e paro por alguns  
segundos, escorada no corrimão frio da escada. Respiro como  
alguém que acabou de bater o recorde de uma meia maratona: meio  
descontrolada, meio quase morrendo. Ultimamente, tem sido  
normal.  
O grupo do WhatsApp, As Três Mosqueteiras , está pipocando:  
Milla: Esmay, você tá viva?  
Sthela: Verdade. Tá sumida desde ontem. Tá aprontando o quê?  
Milla: Dá um sinal aí, Elizaaaaaaaaaaabeth! Alô?  
Esmay: Oi, meninas. Eu tava bem cansada ontem. Tô bem, mas  
daqui a cinco minutos posso não estar  
Milla: POR QUÊ? PARA DE GRAÇA, ESMAY!  
Sempre tão literais, penso.  
Guardo o celular no bolso e volto a subir as escadas, vencendo um  
degrau de cada vez, na esperança de evitar sair rolando escada  
abaixo. Sinto meu celular vibrar mais algumas vezes, mas ignoro.  
Mantenho os olhos bem atentos onde estou pisando e em quão firme  
seguro o corrimão, me prendendo a ele como se minha vida  
dependesse disso.  
Ah… as maravilhas da quimioterapia. Cada dia que passa, parece  
que venho me transformando em outra pessoa: tão frágil e sensível.  
Neste exato momento, me sinto frágil e sensível. Mas tenho  
mantido o controle. O doutor Zhang me tranquilizou, afirmando que  
o tratamento está correndo bem, que venho respondendo bem a cada  
rodada de quimioterapia — apesar de parecer que meu corpo vem se  
deteriorando aos pouquinhos.  
Olhei-me no espelho antes de sair de casa e pareço estar exausta.  
Deve ser porque estou mesmo. Meu cabelo já vinha mostrando os  
primeiros sinais de alopecia, então o cortei na altura dos ombros e  
passei a usar boné. Coincidentemente, já tenho muitos na minha  
coleção, já que todo mundo decidiu que eu gostaria de ganhá-los de  
presente no meu aniversário de vinte e cinco anos, que aconteceu na  
semana passada.  
Acho que vou deixar subentendido que, caso alguém queira me  
presentear no Natal — mesmo que este ano eu esteja sem ânimo para  
comemorar —, não vou querer mais bonés. Sejam mais criativos.  
Endireito a coluna, ergo a cabeça e volto a subir as escadas. Sinto  
minha cabeça girar, e uma única gota de suor frio desce pela minha  
coluna, fazendo os pelos do meu corpo se arrepiarem. Sinto-me  
fraca.  
Ah, Deus!  
Vou desmaiar… é isso?  
Não consigo raciocinar muito bem. Só sinto uma desconexão com  
meu corpo. A falta de ar persiste, insistente e bastante chata. O peso  
que antes eu sentia pelo corpo agora não existe mais. Sinto-me leve,  
flutuando. A mente, um borrão colorido. Sem sentido.  
Um ótimo dia para quebrar alguns ossos caindo deste lance de  
escada, Esmay. Parabéns.  
Então eu caio…  
Espera.  
Não.  
Mãos firmes me pegam, me agarram, seguram minha cintura e,  
logo depois, minha nuca, trazendo-me para perto de si. Seja lá quem  
for esse “ si ”. Só sei que sinto seu cheiro e automaticamente penso  
que esse “si” é alguém muito cheiroso. Sua pele tem cheiro de  
lavanda e algo doce, sem ser feminino.  
Penso que, se ele não estivesse ali, eu não estaria.  
Meu cérebro já está quase desligando, mas consigo pensar em  
muitas coisas embaraçosas em um curto espaço de tempo.  
As mãos firmes ao redor da minha cintura, sustentando meu corpo  
como se a vida dele dependesse disso; os lábios próximos à minha  
têmpora, fazendo com que o boné levante um pouco e talvez revele a  
raiz caótica do meu cabelo, com os primeiros sinais de alopecia; a voz  
grave e perfeitamente confortante quando diz algo como “isso não é  
possível”, talvez. Não sei. Acho que estou divagando.  
Sinto meu corpo ser levantado e, antes que eu tente raciocinar um  
pouco mais, estou sendo carregada — não antes de ouvi-lo dizer:  
— Isso só pode ser um sonho…  
Não sei você, “si” , mas eu com toda certeza estou sonhando. Sou  
muito azarada; então, só em um sonho apareceria um cavaleiro de  
armadura e cavalo branco, semelhante aos livros de romance que  
leio, para me livrar de quebrar alguns ossos e ter fraturas expostas.  
Obrigada, “si”, aliás.  
CAPÍTULO SETE  
Você está aqui  
“E então eu abro os olhos e vejo que quem está se apaixonando aqui sou eu.”  
Dreams — The Cranberries  
Acordar dói.  
Sinto um nó na garganta e a boca seca. Meu corpo me castiga;  
minha cabeça lateja, como se alguém tivesse desligado as luzes  
rápido demais e esquecido de acendê-las direito quando voltei.  
Tudo vem em pedaços. Ouço passos apressados no corredor,  
pessoas conversando sobre algumas futilidades da vida adulta.  
Escuto alguém falar algo como “o médico está atrasado” , “solicite os  
exames agora” ou “a natação do meu filho é às 11, não posso me  
atrasar” . Sei lá. Meu corpo está mole, como geleia, e sinto o cheiro  
de hospital. Grogue . É como me sinto.  
E então… como se tudo isso já não fosse confuso, intrigante e  
incrivelmente embaraçoso — porque não me recordo do que  
aconteceu ou de como vim parar nessa cama de hospital — você.  
Você está aqui.  
Esse nariz reto e arrebitado na pontinha, a pintinha no lado direito  
do queixo que sempre me fez querer te olhar sem parar, os olhos  
verdes intensos, o rosto perfeito. Isso seria um presente de Natal?  
Muito bem-vindo. Obrigada, Papai Noel.  
— Você… é ainda mais bonito pela manhã… — minha voz sai baixa,  
lenta, como se tivesse que atravessar um caminho comprido até  
chegar à boca. — Você é mesmo muito lindo mesmo.  
Ah, Deus. Estou meio grogue, de fato. Minha língua se embola na  
boca. A luz é clara demais. Vejo os raios do sol da manhã reluzirem  
no seu cabelo preto, quase azul, de tão escuro. Fazia muito tempo  
que eu não o via tão claramente.  
Nos outros sonhos, sempre era escuro. Sempre. Eu nunca  
conseguia ver direito o seu rosto. Só sentia a sua presença, tinha um  
vislumbre muito deturpado do formato da sua face, do sorriso. Só  
sentia. E acordava com muito medo. Medo de esquecer a curvatura  
perfeita dos seus lábios rosados, as linhas do seu rosto, o jeito exato  
dos seus olhos e como você sorria para mim.  
Mas eu não esqueci.  
A sua versão mais velha se parece muito com você… Eu tenho uma  
imaginação muito fértil, porque consegui preservar com exatidão  
todas as coisas que sempre gostei. E, mesmo que você seja fruto da  
minha imaginação, ainda assim é perfeito demais para o meu gosto.  
Você está aqui.  
Parado ao lado da cama, me olhando como se eu fosse algo frágil  
demais para ser tocada. Os seus olhos… verdes. Intensos. Tenho  
certeza de que nem mesmo o mar Báltico conseguiria captar o tom  
exato — nem mesmo no verão. São reais demais para um sonho.  
Porque, obviamente, estou delirando. Imaginando você pela  
milésima vez, após tantos anos. Mas até sonhos sabem mentir bem.  
— Das outras vezes… — continuo, porque parar de falar parece um  
pecado, perigoso demais —, quando eu sonhava com você, era  
sempre muito escuro. E… você nunca falava muito. Só ficava ali. A  
sua voz… — sorrio sozinha. — A sua voz sempre me acalmou, sabia?  
Sabia? Meu Deus!? Estou falando com uma alucinação. Como se  
fosse ele aqui mesmo. Como se tivesse aparecido. Uma mágica.  
A verdade é que sinto saudades. Não sei de quando exatamente.  
Não sei de onde. Só sei que sinto.  
Esmay… — diz ele, os lábios se movendo devagar, as mãos  
suspensas no ar, quase que querendo me tocar. Tudo está em câmera  
lenta agora.  
Meu nome na sua boca soa certo e familiar. Eu sorrio mais, com os  
olhos fechados agora, cansada demais para mantê-los abertos. Mas  
já memorizei cada detalhe dele. Separei, numa caixinha, num canto  
seguro do cérebro, o seu rosto, a sua voz.  
Eu me remexo na cama, solto um grunhido. Minha garganta  
continua seca.  
Então você se mexe. Sinto antes de ver. O colchão não se move,  
mas o ar muda. Você vai embora — e nos meus sonhos é sempre  
assim. Sempre. Você nunca fica.  
— Por favor… — as palavras escorregam antes que eu pense. — Não  
vai embora, não.  
Abro os olhos com dificuldade. Tudo está embaçado, e você está de  
costas agora, indo em direção à porta. Ou talvez não. Talvez seja só  
um jeito que minha cabeça inventou de me punir.  
— Nos meus outros sonhos você sempre vai embora — digo, quase  
num sussurro. — Sempre me deixa sozinha.  
Minha garganta aperta.  
— Hoje eu quero… — respiro fundo, tentando — eu preciso ficar  
com você. Nem que seja só um pouco. Só na minha cabeça.  
Meus olhos ardem. O cansaço pesa como se eu fosse mais velha do  
que realmente sou.  
— Só hoje — insisto, com os olhos apertados. As lágrimas  
escorrem, molhando minhas bochechas. Lambo uma lágrima  
solitária no lábio, e seus olhos verdes acompanham o movimento. Eu  
sorrio por um breve instante e depois paro. Mais lágrimas. — Por  
favor.  
Fico quietinha depois disso. O coração batendo alto demais. Fico  
com medo de ter exigido demais dele . Mesmo que isso seja só um  
sonho. Uma fantasia semelhante a todas as outras que já tive.  
Mas ele não vai embora. E, mesmo com os olhos bem fechados  
agora, eu sei. Eu sinto.  
Oscar continua aqui. Comigo.  
CAPÍTULO OITO  
Um devaneio  
Se tudo o mais acabasse e ele permanecesse, eu continuaria a existir; e, se tudo o mais  
permanecesse e ele fosse aniquilado, eu não me sentiria mais parte do universo.”  
— O morro dos ventos uivantes  
— Você vai me deixar sozinha mais uma vez? — pergunto, ansiosa,  
desesperada. Tentando chamar a sua atenção.  
Oscar não responde. Não com palavras.  
Ouço apenas o som da água sendo servida em algum lugar do  
quarto. Depois, passos suaves. Ele não é apressado e não é indeciso.  
Nunca foi, na verdade. Nunca fez o seu estilo.  
O colchão cede levemente quando ele se aproxima de novo. A cama  
reclama num rangido quase imperceptível. Alguém puxa uma  
cadeira e se senta em algum lugar do quarto. Eu não ligo. Toda a  
minha atenção se concentra em Oscar. Não desvio meus olhos dos  
dele. São tão… dramaticamente verdes. Me deixam inebriada.  
Ele estende um copo de água para mim. Ainda não fala nada, mas  
sua respiração é entrecortada, as sobrancelhas franzidas. Eu o  
conheço bem o suficiente para deduzir que ele está preocupado. Mas  
o que tem de tão alarmante acontecendo para fazer um Oscar  
imaginário se preocupar? Ele é apenas um sonho. Um devaneio.  
Uma fantasia minha, não é, minha mente fantástica?  
Bebo a água que ele me ofereceu e deixo-a lubrificar os meus lábios  
rachados, o céu da minha boca, a minha garganta. Sinto o dorso da  
sua mão quente encostar na minha testa e tenho vontade de morrer  
naquele toque. Oscar era sempre tão gentil. Eu lembro desse traço  
marcante nele.  
Fecho os olhos e suspiro devagar. Como uma menininha  
apaixonada. Mesmo de olhos bem fechados, sei que ele está olhando.  
O quarto continua claro. Branco e agora silencioso demais. Quebro o  
silêncio vexatório entre mim e minha personificação de um Oscar  
mais velho:  
— Se essa fantasia for resultado de alguma medicação que eu tenha  
tomado… — digo, meio sonolenta e preguiçosa, os olhos quase se  
abrindo novamente. — Quero ter a chance de tomá-la mais vezes. Se  
isso me fizer ver você tão claramente como agora.  
Sorrio, divertida.  
Ele solta um grunhido.  
Exatamente. Oscar solta um grunhido do fundo da garganta. Ouço  
quando ele diz, com uma voz bem diferente da que eu me lembro,  
mas ainda assim… conheço bem a voz. Meio confusa essa situação:  
— Mas que merda é essa? — diz ele, talvez rude demais.  
Ou melhor, diz alguém . Porque os lábios de Oscar não se  
moveram. Só estão meio entreabertos, entre a incredulidade e o  
choque.  
No entanto, a voz… não é de Oscar. Reconheceria esse timbre entre  
um milhão de pessoas. Essa voz é de alguém que me conhece e é  
muito próxima a mim. E, pelo tom e o agudo abusado… estou certa  
de que a dona da voz está muito brava.  
Agora, que droga é essa que está acontecendo? Porque, até onde eu  
sei, estou alucinando. Sendo assim, não consigo entender por que a  
voz da Milla aparece em um sonho que estou tendo com Oscar.  
Ouço um barulho irritante de uma cadeira riscando o chão,  
rangendo de forma incômoda enquanto alguém se levanta  
bruscamente. Oscar retira a mão da minha testa e eu gemo,  
reclamando. Não quero que se afaste. Pela primeira vez em muito  
tempo sonhando com ele, eu não tenho mais medo de esquecer.  
— Você poderia, por gentileza, nos dar um tempo a sós? —  
pergunta Oscar a alguém. — Ela está sob efeito de medicação, mas já  
está recuperando a consciência. Se você não se importa…  
Oscar estende a mão na direção da pessoa. E então eu olho. Meus  
olhos se arregalam de verdade e agora posso ver mais claramente o  
que está acontecendo à minha volta.  
É mesmo Milla.  
A pessoa que Oscar pediu tão educadamente para se retirar… é ela.  
— Não vejo por que eu faria isso — retruca, com uma rispidez  
reservada àqueles em quem ela não confia. — Ela está claramente  
delirando e confundindo você com outra pessoa. É natural que eu  
queira me certificar de que ela está plenamente consciente antes de…  
— Milla? — chamo por ela, que passa por Oscar. Sim, ela contorna  
Oscar e vem em minha direção. Agarra minhas mãos, que estão frias,  
e o seu toque me aquece. — V-você — gaguejo, nervosa. — Está aqui?  
Quero dizer, você é real?  
Ela franze as sobrancelhas, demonstrando uma confusão genuína.  
Milla sempre foi muito transparente quanto às suas emoções.  
— Sim, querida — confirma, assentindo com a cabeça. Seus cabelos  
formam um véu que esconde meu rosto do olhar intrigado de Oscar.  
— Eu recebi uma ligação do hospital. Estou na sua lista de chamada  
de emergência. Lembra?  
Faço que não com a cabeça.  
— Você não se lembra que me colocou na sua lista de emergência?  
— pergunta, incrédula, apertando meus ombros de leve. Ela se senta  
na beirada da cama. — Elizabeth, você desmaiou quando subia a  
escada da clínica. Foi isso que aconteceu, querida. Não se lembra?  
Faço que não com a cabeça mais uma vez.  
Milla fala algo como “não sabia que estava com problemas de  
memória”, mas não é isso. Porque eu me recordo. E se ela for real —  
e tudo o que disse for também —, então isso só significa uma única  
coisa: Oscar é real, ouviu todas aquelas bizarrices que falei, Milla  
presenciou a cena de horror e agora o maior vexame da minha vida  
adulta foi assistido por duas pessoas próximas. Duas . Droga.  
— Eu me lembro, sim — digo rapidamente, interrompendo algo  
que ela iria dizer. — É só que… Milla. Acho que preciso falar a sós  
com o Oscar.  
Ela se afasta de olhos arregalados, com uma expressão que diz algo  
como: que merda é essa que está acontecendo e quem é esse cara?  
Desvio o rosto do olhar inquisidor dela e me concentro nele.  
Oscar está vestindo uma camisa de algodão preta e um jaleco  
branco. Um jaleco. Branco . Com um crachá. Com o seu nome.  
Ele usa um estetoscópio no pescoço e carrega um tablet em uma  
das mãos. Ele o coloca na mesinha ao lado, mordendo as bochechas  
por dentro, e depois o pega novamente, meio inquieto.  
Seus olhos cor de esmeralda me estudam, captando sensações que  
nem eu consigo entender. Quero me afundar nessa cama e virar uma  
só com ela. Apenas um objeto inanimado, sem sentimentos.  
— Você vai me explicar o que aconteceu aqui depois? — pergunta  
Milla, me tirando de um transe guiado pelos olhos verdes dele. —  
Elizabeth?  
— Vou. Claro. Eu explico, sim.  
Vai ser ótimo, Milla, explicar detalhe por detalhe de todo esse  
constrangimento.  
— Pode deixar.  
Ela resmunga um “tudo bem” rápido, me dá um beijo na bochecha  
e se afasta. Antes de sair porta afora, encara Oscar mais uma vez.  
Milla tem 1,80 m de altura, mas não faço a menor ideia de como  
consegue ficar pequena perto dele. Com certeza a teoria da  
relatividade de Einstein explica isso.  
A porta se fecha.  
E então fico a sós com ele.  
Oscar .  
— Você é real, não é? — pergunto, com os olhos baixos. Observo as  
suas mãos enormes se fecharem até os nós ficarem brancos. Então  
ele as abre e estica todos os dedos. Essa mania… ainda não perdeu.  
— Sou, sim, Esmay — responde ele, com uma voz grave e firme. —  
Eu não disse nada porque ela estava aqui. Seria antiético da minha  
parte responder às suas alucinações.  
Eu finalmente o encaro. Seus olhos verdes me perfuram.  
— Eu… Esmay, eu…  
— Como isso é possível?  
— Não faço a menor ideia.  
— Osca  
— Oi.  
Engulo em seco.  
— Você é mesmo real?  
Antes que eu finalize, Oscar se aproxima com passos largos e  
decididos. Ele olha de um lado para o outro, mas não tem ninguém  
neste quarto de hospital limpo e branco demais.  
Ele agarra minha mão direita com cuidado e delicadeza. Meus  
pelos se arrepiam.  
Com a outra mão livre, ele segura a aba do meu boné, na intenção  
de tirá-lo.  
Faço que não com a cabeça.  
— Por favor…  
Sua mão aperta a minha, como quem diz relaxa… você está bem.  
— Shhh… — murmura ele. — Está tudo bem. Você ainda confia em  
mim, não confia?  
Penso por alguns segundos.  
Então faço que sim com a cabeça, lentamente.  
— Certo — diz, levantando a aba do meu boné só um pouquinho.  
Eu suspiro, nervosa, irritada, medrosa.  
Ele assente uma, duas vezes.  
Abaixo o olhar, envergonhada.  
Oscar retira o boné por completo e então eu deixo,  
inconscientemente, uma lágrima solitária escapar.  
— Você é linda, Esmay. Sabia? Sempre foi.  
Arregalo os olhos, surpresa.  
— Eu não…  
— Você é — garante ele. — Isso não passa de uma fase do  
tratamento. Eu consigo entender o quanto deve ser difícil para você  
aceitar que os seus lindos cachos estão caindo. Você sempre amou  
seu cabelo e… — Uma pausa. — Eu também.  
Ele sorri. Sua covinha na bochecha esquerda fica mais evidente  
que a da direita.  
Oscar brinca com um cacho rebelde e ressecado do meu cabelo.  
— Vai passar — afirma ele. — Você vai enfrentar o tratamento de  
cabeça erguida e não vai deixar esse câncer vencer. Como a péssima  
perdedora que você é.  
Solto uma risada fraca. Mais lágrimas caem. Oscar as limpa com o  
polegar, sorrindo para mim.  
Seu sorriso é mesmo lindo.  
Disso eu me lembro.  
Ele tem razão. Nunca gostei de perder mesmo. Sempre arrumava  
confusão quando perdia dele no xadrez, por exemplo. Oscar  
aprendeu xadrez comigo, mas acho que ele era talentoso demais. Um  
gênio. Eu só era muito habilidosa. Ele sempre vencia. Eu nunca  
consegui vencê-lo. Isso me irritava às vezes. Meu espírito esportivo é  
meio intenso. Sanguinário.  
— Você desapareceu da minha vida, Oscar — choramingo. — Em  
um Natal você estava lá, sendo a pessoa que eu mais confiava e  
queria por perto no mundo e…  
As palavras se perdem.  
Ele assente, as sobrancelhas erguidas, franzidas de um jeito fofo.  
Os olhos bem abertos, profundos demais para eu conseguir encará-lo  
por muito mais tempo.  
— Quando eu voltei para Tiradentes para visitar a vovó Mirtes e  
também ver… você — insisto. Ele não desvia os olhos dos meus. Os  
lábios entreabertos. O rosto corado. Um semblante de tristeza nubla  
sua face. — Naquele Natal de 2013, você não estava mais lá. Você  
tinha evaporado. Como se nunca tivesse existido.  
— Querida — diz minha avó, com os olhos tristes. — Eu sinto  
muito. Não peguei endereço nem número para contato. Quando  
fiquei sabendo… a tia já tinha ido embora e levado o menino junto.  
Pobrezinho. Os pais sequer…  
— A senhora sabe quando ele foi embora? — pergunto, acelerada.  
O coração batendo forte no peito. As mãos suando. — Ele… veio  
aqui alguma vez depois que voltei para Belo Horizonte?  
— Veio, sim, querida. Eu… — Vovó suspira por alguns segundos.  
Então limpa as mãos no avental branco e corre até o forno para  
retirar o bolo de milho que estava assando. — Eu dei comida pra  
ele. Fiz marmita de lasanha de frango, que eu sei que ele adora, fiz  
bolo de milho, cesta de pão de queijo, suco de morango, feijão-  
tropeiro… Fiz tudo para ajudar, Esmay. Porque eu sei que ele é um  
bom menino.  
— E-eu… — gaguejo. Agarro com força o tecido macio do vestido.  
Meus lábios tremem, os olhos marejam, a respiração se embaralha  
enquanto escuto minha avó dizer que Oscar — meu melhor amigo,  
minha pessoa favorita — foi embora. E pior: não sabemos para  
onde, nem com quem, nem se vai voltar. — Não consigo acreditar  
que Oscar se foi. E-ele… acho que ele precisa de mim, vovó, né?  
Ela abre um sorriso triste, repleto de compaixão.  
— Merda! — praguejo.  
— Olha a boca, menina — adverte minha avó, sem me olhar feio.  
— Desculpe… é só que… — respiro fundo. — Eu o amo, vovó.  
As palavras saem feias e embargadas. Um nó se forma na minha  
garganta, me sufocando. Eu disse em voz alta que o amava. Minhas  
bochechas queimam de vergonha.  
Mas confio em minha avó.  
— Oh, minha querida — consola ela, afagando meu cabelo e me  
puxando para mais perto. Apoio a cabeça em seu peito e sinto o  
perfume doce e delicado, o aroma de bolo de milho no avental. A  
chuva cai lá fora, molhando o jardim de rosas, assim como as  
lágrimas grossas e salgadas molham meu rosto. — Você só tem  
treze anos… Vai saber o que é amar alguém de verdade quando  
estiver mais velha. Agora… pode chorar.  
E foi isso que fiz. Chorei por mim, por Oscar, por termos nos  
afastado tão bruscamente. Chorei porque o Natal de 2013, que eu  
achava que seria maravilhoso, se transformou em um pesadelo.  
Passei dias chorando. A saudade me sufocava. O medo dele estar  
com fome, sem ninguém para ajudá-lo. Naquele Natal, torci para que  
Oscar conseguisse vencer na vida. Sair daquele limbo de pobreza e  
necessidade.  
Depois de Oscar… nunca mais amei alguém.  
Aquilo, sim, era amor.  
Esmay… — diz ele, com o rosto repleto de dor. Seu polegar  
passeia pela minha bochecha, devagar. — Eu procurei por você.  
Depois. Quando já tinha condições de me virar sozinho.  
— Você procurou por mim? — pergunto, com as sobrancelhas  
franzidas. — Onde?  
— Não voltei para Tiradentes depois que fiquei sabendo da morte  
da sua avó. Sinto muito. Ela era…  
Ele engole em seco. Respira fundo. Seus dedos tremem ainda  
acariciando minha pele.  
— Ela era muito boa para mim.  
— Por que não voltou?  
— Eu sabia que a única coisa que te prendia àquela cidade era sua  
avó — responde, com a voz baixa. Quase uma confidência.  
— E você… — sussurro.  
— O quê?  
— As únicas pessoas que me prendiam a Tiradentes eram a minha  
avó e… você , Oscar.  
Ele abre a boca, fecha, abre de novo. Então pergunta:  
— Você voltou lá depois da morte da sua avó?  
Assinto. O qu eixo dele cai. Os olhos verdes bálticos se arregalam.  
Você ainda não percebeu, Oscar? Não entende o quanto eu…  
Quando?  
— Todos os anos. Em todos os Natais, Oscar.  
— Merda…  
— É. Merda mesmo. De 2013 até este ano, passei todos os Natais  
em Tiradentes. Esperando você. — Ele reprime um xingamento. —  
Mas você nunca apareceu.  
— Eu não imaginava que…  
— Que eu fosse tão apegada àquela cidade? — Ele arregala os  
olhos. — Ou… a você?  
— Não é isso — retruca, passando as mãos pelos cabelos escuros.  
Ele coça os olhos e logo em seguida passa as mãos grandes pelo  
rosto. Parece… exausto. Vejo as olheiras azuladas abaixo dos olhos, a  
boca franzida e apertada. Ainda assim, segue sendo o homem mais  
bonito com quem já interagi na vida.  
— Eu não imaginava que você ainda pensasse em mim, Esmay —  
diz, passando as mãos agora pelos meus cachinhos rebeldes. —  
Achava que era só eu que…  
— O quê, Oscar?  
— Que não conseguia te tirar da cabeça — revela, apertando a  
ponta do nariz e sorrindo fraco.  
Oscar é lindo. Tão lindo de morrer que decido que é hora de  
colocar o boné de volta.  
— … e olha que tentei, Esmay. Muito.  
Prendo a respiração.  
— Você não faz ideia — conclui ele.  
Minha expressão muda. Algo muito próximo de ciúmes . Um  
sentimento feio. Não posso permitir sentir ciúmes de um homem de  
27 anos, solteiro, sem compromisso algum comigo.  
— Eu tenho sim. Deve ter saído com muitas mulheres, então.  
Ah, com toda certeza ele saiu , sim. Não faz sentido que alguém  
como ele não tenha um exército de mulheres ao estilo Victoria’s  
Secret — com o detalhe cruel de serem também inteligentes,  
provavelmente cientistas como ele. Gênias . Como ele. Que chance  
eu tenho?  
— O quê?! — exclama Oscar, arregalando os olhos. — Isso… não.  
Não mesmo, Esmay.  
— Então o que você fez para tentar — faço aspas com os dedos —  
me tirar da cabeça?  
Ele morde a parte interna da bochecha. Eu mordo os lábios,  
tentando segurá-los firmes.  
— Saiu fazendo trabalho comunitário, leu cem livros por ano,  
aprendeu novas receitas, resgatou gatinhos de árvores, plantou um  
limoeiro? — indago. — Me diz , Oscar.  
Ele fica sério. Não é raiva. É consigo mesmo.  
— Eu estudei , Esmay. Não é isso que pobre tem que fazer neste  
país de merda?  
— Perdão?  
— Quando eu tentava te tirar da cabeça — repete, com a respiração  
pesada — eu estudava. Estudei e trabalhei como um desgraçado.  
Mas, entre fórmulas de matemática e mesas que eu tinha que servir,  
você sempre aparecia. Sempre.  
— Parecia coisa da minha cabeça. Mas eu gostava de lembrar de  
você. Do seu rosto, da sua risada. Isso me mantinha focado. Eu sabia  
que, se quisesse ter alguma chance de te reencontrar, precisava  
resolver a minha vida ferrada. Então trabalhei, estudei para o Enem  
e passei, com dezoito anos, na PUC. Fiquei em primeiro lugar. Foi  
difícil. Toda a transição, quero dizer.  
Faço que sim com a cabeça.  
Quero poder abraçá-lo. Quero muito. Quero poder dizer que estou  
feliz que ele tenha conseguido. Que durante todo esse tempo guardei  
na memória as lembranças da minha relação com ele. Da nossa  
amizade profunda. De tudo em Tiradentes. Ah, Oscar. Se você  
soubesse.  
Oscar respira fundo e balança a cabeça. Os seus olhos me  
capturam.  
Não consigo parar de encará-lo. Estou… estarrecida . É isso.  
— Mas, eu nunca pensei em desistir — admite. — Eu sofri muito.  
Pra caramba! Olha… foi bem problemático todas as coisas que  
passei. Porém, eu acho que sou um pouco teimoso. Imperturbável,  
talvez?  
Talvez? — retruco balançando a cabeça e sorrindo. — Oscar,  
você é a pessoa mais autocentrada que já conheci em toda a minha  
vida.  
— Quê?! — exclama ele. — Tá me chamando de egocêntrico,  
Esmay? Ou pior… Não! Tá me chamando de narcisista ?  
Arregalo os olhos. Não! Não.  
Peraí. Tá de sacanagem? Oscar está brincando comigo. Ele  
entendeu o que eu quis dizer. Só está tirando sarro das minhas  
escolhas de palavras, como quando éramos adolescentes.  
Você e suas palavras difíceis. Eu sei , Esmay. — Ele diz. Suas  
mãos voltam a acariciar minha bochecha sardenta. Eu não reclamo.  
— Concordo. Eu sou meu próprio eixo. Não costumo me anular para  
caber em relações. Consigo me colocar em primeiro lugar sem me  
sentir mal com isso. Mas, não sou egoísta. Nunca.  
— Não é, não. Você é…  
Engulo em seco.  
— … um gênio.  
Não era isso que eu ia dizer. Ele sabe que não. Porque me olha de  
um jeito intenso demais.  
— Não sou, não . Sou esforçado. Razoável.  
Ele dá de ombros.  
— É diferente.  
Arregalo os olhos. Oscar sempre foi um gênio. Quando me  
ensinava matemática, explicava melhor do que qualquer professor.  
Tirava minhas dúvidas com paciência, como se tudo fosse simples.  
Sempre dizia que era só porque era dois anos mais velho.  
Razoável?  
Nem ele acredita nisso.  
Ele tem ciência de que é brilhante.  
— Você é mesmo um gênio, sim! Parabéns, Oscar! — digo,  
sorrindo. — Você cursou medicina na PUC?  
Ele aquiesce com a cabeça.  
— Você…  
Ele me encara, ansioso. Nervoso. O rosto corado, os lábios  
apertados, como se estivesse com medo do que eu fosse dizer.  
— Oscar, você trabalha aqui?  
Ele morde o lábio inferior e passa os dedos longos pelos cabelos  
escuros. A luz do sol da manhã, que entra pelas janelas do quarto, faz  
Oscar ficar ainda mais lindo. Se é que isso é possível.  
— É complicado — responde, balançando a cabeça.  
— Não sou um gênio como você, mas acho que posso entender —  
digo, inclinando a cabeça.  
Uma mecha do seu cabelo liso escorrega para os olhos e, com um  
instinto que nem eu mesma sabia que nutria em relação a ele, corro  
para afastá-la. Ele faz o mesmo. Nossos dedos se tocam. Uma  
descarga elétrica sem precedentes, como dois fios desencapados.  
Antes que eu recolha a mão, ele segura meus dedos e os mantém ali,  
colados à sua bochecha.  
— Eu sou residente R1 de Oncologia em um hospital público —  
explica. — O doutor Zhang é meu preceptor. Foi ele quem me  
orientou desde a faculdade… acabamos ficando muito próximos.  
Ergo uma sobrancelha, e ele continua. Os nós dos dedos acariciam  
o meu maxilar.  
— A clínica é conveniada com o hospital da residência. Então faço  
alguns plantões aqui também. Sempre com supervisão dele, claro.  
Tudo muito bem controlado.  
Ah, Deus. Oscar… você conseguiu se tornar médico?  
— Uau… — sorrio, e ele sorri também. Ficamos nos encarando,  
intensamente. — Meu Deus! Parabéns, Oscar. Eu nem sei se consigo  
mensurar o quanto estou feliz por você.  
Ele continua segurando minha mão colada a sua bochecha. Os  
olhos verdes brilhando.  
Antes que eu perceba, já estou o abraçando. Agarrada ao seu  
pescoço. Meu queixo apoiado nos ombros largos. Oscar não hesita e  
passa os braços pela minha cintura, me puxando para mais perto.  
Não quero sair desse abraço nunca mais. Senti tanta saudade.  
O cheiro dele é muito bom. Aliás, eu me lembro desse cheiro… é  
tão gostoso. Tão familiar . Era ele, então.  
— Você é o “ si ”, Oscar…  
— O quê, querida? — murmura. — Repete. Eu não entendi.  
— Você é o “ si” — repito. — Era você na escada, não era? Você me  
salvou.  
Ele não responde. Mas aperta minha cintura com mais força.  
Assente com a cabeça. Afaga minhas costas. Cheira meu cabelo.  
Era ele, sim.  
Oscar… meu cavaleiro de armadura e cavalo branco.  
Quem diria, não é?  
Isso, sim, é um presente de Natal de verdade.  
CAPÍTULO NOVE  
Parece até mentira  
“Eu sei que algum dia você terá uma bela vida. Eu sei que você será uma estrela no céu  
de outro alguém, mas porque não pode ser no meu?”  
Blach — Pearl Jam  
Continuo sem acreditar que é ela. Esmay.  
Eu a procurei por tanto tempo. Achava que nunca conseguiria vê-la  
novamente. Eu me considerava um cara extremamente azarado. Mas  
parece que nem tanto agora, porque a sorte resolveu sorrir para  
mim. Já não era sem tempo.  
De todas as clínicas de Belo Horizonte em que ela poderia se tratar,  
escolheu justo essa. É nítido que isso se deve à competência do  
doutor Zhang e ao fato de ele ser uma referência na oncologia. Mas,  
ainda assim, é quase um sonho. Já me belisquei inúmeras vezes  
desde que a trouxe para cá.  
Esmay Elizabeth. Seu nome. Era tudo o que eu tinha e sabia sobre  
você. Nada mais, além disso. E, olhando para o passado agora, só  
consigo pensar que toda a espera valeu a pena. Todo o tempo que  
desejei passar com você ou ver o seu sorriso de novo. As noites em  
claro entre uma prova e outra da faculdade, as horas de trabalho  
incansáveis. Tudo valeu a pena. Todo esforço e dedicação me  
trouxeram exatamente para este momento da minha vida. O  
momento em que reencontrei você.  
E parece que nada mudou. Pelo menos não para mim. Olhando  
para você agora, percebo que o seu sorriso continua o mesmo de  
antes. Encantador.  
Como você sorri é inebriante.  
Você estava tão próxima. Perto demais. Parece até mentira.  
Quando vi aquela garota escorregar e quase cair da escada, agi por  
reflexo e impedi o pior. Fiquei orgulhoso de mim mesmo. Mas,  
quando finalmente prestei atenção… as sardas nas bochechas, os  
olhos castanhos expressivos e alegres, que eu conhecia bem, os  
cabelos cacheados…  
Quando olhei para o rosto daquela garota, que agarrava a barra da  
minha camisa com tanta força. Quando me dei conta de que quem  
estava nos meus braços era você… meu mundo ganhou cor  
novamente. Forma.  
Foi um choque quando descobri o motivo que te trouxe até aqui.  
Olhei todo o seu prontuário e o seu histórico médico de cima a baixo.  
Analisei todos os exames já feitos até agora, as infusões, quantos  
ciclos de quimioterapia você já fez. As intercorrências. Não quero  
deixar passar nada. Quero cuidar de você.  
É exatamente por isso que talvez eu esteja prestes a fazer uma  
coisa antiética e extremamente displicente da minha parte. Estou um  
pouco nervoso. Ah, cacete! Tô muito nervoso. Mas eu consigo fingir  
bem.  
É um problema quando penso no fato de que ele me conhece muito  
bem. Entretanto, tenho em mente que sou excepcional quando o  
assunto é performar. Fiz isso a minha vida inteira.  
Duas batidas na porta.  
Nessa porta perturbadoramente branca. Ele sabe que sou eu. Mas  
nunca me pede para entrar. Gosta de agir como se não me  
suportasse. Velho rabugento! Eu sei que você me adora.  
Eu sempre entro.  
Porque, se eu não entrar… olha, sinceramente, ele não se  
importaria em me ver petrificado, semelhante às estátuas das  
pessoas daquela cidade romana chamada Pompeia, que foi destruída  
e soterrada pela erupção daquele monte… qual era mesmo o nome?  
Ah! Vesúvio. De fato, Zhang não se importaria. Ou, ao menos, quer  
que eu acredite nisso.  
— Estou ocupado agora, Oscar — resmunga ele, carrancudo e  
irritado.  
Os olhos de águia se concentram na tela do seu computador de  
última geração, que para ele faz pouca diferença — já que Zhang mal  
consegue acessar o Google sem precisar de ajuda.  
— Tô vendo.  
Pilhas de exames e papéis estão espalhadas pela sua mesa ampla,  
que agora parece pequena demais. Espera. O quê é aquilo ali? São  
desenhos de… crianças?  
Naquele desenho perto do braço dele tem mesmo um Zhang de  
braços cruzados e óculos praticamente maiores que o próprio rosto,  
com cabelo Black Power, vestido de… Super Choque?  
Ah… são cartinhas.  
Cartinhas de Natal. Tem um mini texto escrito com letrinhas meio  
disformes, mas incrivelmente fofas. Os “os” e os “as” saíram  
desengonçados. Mas está perfeita. Na carta, diz:  
Amo você, doutor Z. A mamãe disse que eu tenho que chamar de  
senhor, mas você já disse que não liga. Sabia que eu gosto de como  
você trata a gente? As outras pessoas sempre me olham feio, como  
se eu fosse um monstro. Mas você não.  
Já que você me falou aquele dia que é mesmo o Papai Noel, eu  
queria pedir um presente. Se não puder me dar esse ano porque não  
fui bonzinho e aprontei algumas coisas — como aquela vez que  
coloquei meleca no casaco do Arthur ou aquela outra em que  
chamei a Alice de feia, quando ela pegou a minha caixa de colorir e  
não queria devolver — não tem problema. Deixa pro ano que vem.  
A titia Mara disse que eu tinha que me desculpar com meus amigos  
e pedir perdão pro Papai do Céu também. Fiz as duas coisas. Ela  
disse que o Papai Noel ia ficar sabendo do meu auto de himildade.  
Acho que foi isso que ela disse. Mas eu queria pedir o meu presente.  
Faz tanto tempo que tô ansioso. Espero que você traga o que pedi.  
No dia que a titia Mara veio aplicar aquele soro que demora, eu  
perguntei se poderia ir à praia. Ela disse que ainda não. É que eu tô  
muito dodói, né? Mas eu quero ir com a mamãe, o papai, a Mirna e  
o meu cachorro caramelo. Sabia que o nome dele é Virgil Hawkins?  
Igual o desenho do Super Choque. Eu adoro esse desenho.  
Então, quando eu andava com ele na rua, gritava: VIRGIL  
HAWKINS, quando ele corria atrás de outro cão e todo mundo  
ficava olhando. Ele vinha, claro. Balançando o rabinho. Amo ele  
também e sinto saudades.  
Então, quando eu for à praia, eu quero levar o presente que vou  
pedir agora. Quero uma boia verde com aquele peixe lindão azul do  
desenho que assisti ontem. Ele é azul, grandão, doutor Z, e parece  
um tapete. Leva todos os peixinhos para a escola. É do desenho  
Procurando Nemo. Eu não sei o nome daquele peixe gigante… mas  
ele tem um rabo fino e pontudo. É bonito. Será que vou ter a chance  
de ver um daqueles de verdade? Eu queria. Queria mesmo.  
Minha mãe dormiu na hora que ele apareceu, então ela não sabe  
como chama aquele peixe. Mas você é o Papai Noel. Tem poderes  
mágicos, não é? Vai descobrir. Eu quero essa boia. Verde, com esse  
peixe bonito azul cheio de bolinhas.  
Eu quero pegar sol na pele. Tomar banho naquela água salgada. A  
mamãe disse que não pode beber porque faz mal e tem gosto ruim.  
Eu não bebo. Nem o Virgil Hawkins.  
Então, se você tiver tempo e quiser mesmo me dar esse presente,  
não esquece de deixar aqui no meu quarto, tá? Vou ficar esperando.  
Tá vendo? Sou um menino bonzinho.  
De seu amigo mais engraçado,  
Dante.  
Que criança… adorável  
— Quantos anos ele tem?  
Zhang ainda não está olhando para mim. Como eu disse: gosta de  
fingir que me odeia.  
— Quem? — pergunta, ainda digitando.  
— O dono do Virgil Hawkins — insisto. Ele finalmente me olha. —  
Quantos anos ele tem?  
— Dante tem oito anos e é uma criança excepcional.  
— Concordo.  
— Hmm.  
— O nome é Sr. Raia , doutor Zhang.  
— Perdão? — Ele ajeita os óculos fundo de garrafa enquanto me  
encara, franzindo as sobrancelhas. — Do que está falando, Oscar?  
— Você vai ter que adaptar o presente, porque ele foi muito  
específico.  
Zhang solta uma risada e se reclina na cadeira, fazendo-a ranger  
baixinho.  
— Quer dizer… uma boia verde com o desenho do Sr. Raia? Não vai  
achar isso em lugar algum. Vai ter que adaptar.  
— Obrigada pela dica, Oscar. Mas eu tenho os meus próprios  
artifícios.  
— Que seriam…?  
Zhang ergue uma sobrancelha, e um sorriso de lado ornamenta  
seus lábios. Ah, claro. Como não pensei nisso antes?  
— Vai mandar fazer? — indago.  
Ele sorri. Um sorriso debochado. Zhang parece até mais jovem  
sorrindo assim. O cabelo grisalho não faria muita diferença se ele  
sorrisse assim mais vezes.  
— Não faço a menor ideia de onde vai conseguir fazer isso, mas vá  
em frente. Dante precisa mesmo ganhar essa boia verde de  
presente… Papai Noel.  
— Sim.  
Ele sorri mais ainda. Mas logo em seguida volta os olhos para a  
tela do computador, me ignorando. Ótimo.  
Pigarreio. Ele não olha de volta. Beleza.  
— Doutor Zhang, eu vim perguntar se…  
— Se for reclamação sobre atraso de infusão — interrompe — ou  
algo do tipo, fale com a enfermagem.  
Não é nada disso.  
— Quero acompanhar a paciente Esmay — digo. Ele não levanta os  
olhos do teclado do computador. Está digitando usando apenas os  
dois dedos indicadores, como pinças. Faz isso como uma tartaruga.  
— Acredito que possa ser de grande valia para a minha formação.  
— Ela não é uma paciente difícil, Oscar — observa ele, ainda  
digitando como uma lesma. Meu Deus! — Não que exista algo difícil  
para você, não é mesmo?  
Já está na hora de ele aprender a usar o microfone do computador  
para transcrever textos. Uma mensagem de e-mail com dez linhas se  
transforma em um grande evento literário de mais de meia hora.  
Doutor Zhang… o senhor é um cientista brilhante. Mas, quando o  
assunto é tecnologia… uma criança de três anos consegue se sair  
melhor. Aposto que Dante consegue se sair melhor do que você.  
— Sei que não.  
Ele ergue uma sobrancelha.  
— O que você andou aprontando no seu tempo livre? — pergunta,  
curioso.  
Os olhos escuros, agora atentos, me encaram. Isso me faz lembrar  
da época da faculdade, quando apresentei meu projeto de pesquisa  
sobre linfomas, que fez com que boa parte dos meus colegas se  
esforçasse um pouquinho mais para conseguir uma vaga como  
orientandos do doutor Zhang. Ele só escolhia os melhores. Palavras  
dele, não minhas.  
Quando finalmente decidiu que só eu seria orientado por ele  
naquele ano, percebi que eu poderia mesmo me tornar um médico  
excepcional. Grande parte do profissional que sou hoje devo a ele.  
— A Esmay desmaiou subindo as escadas da clínica outro dia —  
declaro. Ele me observa atentamente agora, com a postura  
completamente aberta. — Isso me deixou incomodado. Decidi, então,  
voltar ao ponto de partida. Reli a biópsia original, olhei as imagens  
do PET com calma, conferi também as datas, as doses e os exames  
que ela fez.  
— Conversou com a paciente? — indaga ele, coçando o queixo. —  
Isso é essencial.  
— Sim, senhor. Em tese, fiz uma segunda leitura especializada do  
caso dela.  
— E?  
— Suspeito que tenha havido uma reação pulmonar inicial à  
bleomicina. A inflamação que vimos no PET intermediário, na  
verdade, é um…  
— Falso positivo? — pergunta ele, intrigado. Um sulco se forma  
entre as sobrancelhas grisalhas. Ele se remexe na cadeira,  
impaciente, ansioso. Ele gosta de me ver divagar, ao que parece.  
— Isso.  
— Certo. E o que mais?  
Me afasto da porta, aproximando-me da mesa com as mãos  
enfiadas no bolso do jaleco.  
— Não seria o câncer progredindo, obviamente. Talvez o exame  
não esteja pior. Só o corpo dela que agora está respondendo de um  
jeito diferente.  
O exame dizia que o câncer tinha recuado, mas não o quanto  
deveria. O PET feito no meio do tratamento mostrava resposta, mas  
abaixo do esperado. Tudo bem. Não é um fracasso, afinal. Somente  
um alerta.  
O câncer não está se espalhando pelo pulmão. É apenas uma  
inflamação causada pelo tratamento.  
— Tudo bem. Pode ficar de olho nela, por ora…  
Ele volta a digitar com certa dificuldade. Depois para e continua a  
me orientar, porque digitar e conversar são como óleo e água para  
ele. Zhang não consegue misturar as duas coisas.  
Hesito por um segundo antes de falar:  
— O senhor acha que… que seria prudente eu acompanhar o caso  
mais de perto mesmo ?  
Não sei porque fiz essa pergunta idiota. É o que eu quero, não é? E  
mesmo que seja antiético, não tem como Zhang saber.  
Ele me encara.  
— Acompanhar, sim . Decidir, não. — A pausa é breve, mas firme.  
— Isso ainda é minha responsabilidade.  
Faço que sim com um aceno.  
— Claro.  
— Vou discutir isso com a pneumologia e rever as imagens com a  
radiologia antes do próximo ciclo — continua Zhang. — Se houver  
qualquer sinal de toxicidade pulmonar evolutiva, a bleomicina sai do  
protocolo.  
Ele fecha os olhos e passa as mãos pelos cabelos grisalhos. Um  
sinal da sua irritação corriqueira.  
— Até lá, seguimos atentos. Tudo muito bem documentado.  
Solto o ar devagar e assinto, mais uma vez. Ele me despensa com  
um aceno de mão.  
— Tá digitando um livro? — pergunto antes de sair. Ele me olha  
feio.  
— É um e-mail em resposta a uma aluna da residência que está  
com dificuldades. Anotei no papel rapidinho… mas sabe como é…  
não sou o bonzão da tecnologia. Não sei como os jovens de hoje  
conseguem usar com tanta facilidade essa… coisa.  
— Tudo bem. Chega pra lá! — peço, empurrando sua cadeira um  
pouco para o lado. — Deixa que eu faço isso.  
— É muita gentileza, Oscar. Mas não precisa.  
— Claro que precisa — retruco, sorrindo de lado. — Olha o  
tamanho desse texto! Não ia conseguir digitar tudo isso nunca.  
Ficaria escrevendo aqui até o Natal. Ou talvez até o Ano-Novo.  
Ele me empurra com o ombro.  
— Não conta isso pra ninguém, garoto.  
Nunca perdeu essa mania, não é? De me chamar de garoto.  
Beleza. Já estou acostumado.  
— Não conto, não. Pode deixar.  
Em menos de três minutos, o garoto aqui escreveu o e-mail e  
enviou. Sem maiores problemas.  
Ah, Zhang . Aprende a ser grato da próxima vez.  
CAPÍTULO DEZ  
Implicações  
“ O meu amor e os meus desejos permanecem inalterados.  
Mas basta uma única palavra sua para que nunca mais lhe fale no assunto.”  
— Orgulho e Preconceito  
Ele me deu o número dele.  
Por livre e espontânea vontade. E, mesmo que não tivesse me  
dado, eu teria pedido. Com Oscar eu não consigo ter vergonha. Ele  
me deixa confortável. Me sinto segura.  
Depois do desastre que foi aquele dia e do quanto fiquei mal antes  
e depois da infusão, continuei cogitando ligar ou não para ele. Ontem  
passei o dia inteiro com o celular na mão. Tomando coragem. Por  
quê? Porque sou uma idiota. Covarde.  
Sthela insistiu, afirmando que eu teria que ligar. Mas Milla… Ela é  
a maior defensora do Oscar agora. Não sei o que deu nela. Quero  
ligar, sim. Mas não quero ser um incômodo e, definitivamente, não  
quero prejudicá-lo no trabalho. Oscar está me acompanhando de  
perto, mas o doutor Zhang… Bom, ele não sabe da nossa relação. Ou,  
ao menos, da nossa antiga relação.  
Eu sei que era coisa de criança. Mas foi especial. Pelo menos para  
mim e, meu Deus, acho que estou apaixonada por esse homem. Esse  
gênio de um metro e noventa de altura.  
— Você não vai esperar mais, né? — diz Sthela, alisando o lenço  
rosa-claro na cabeça. — Ou será que vai ?  
Solto um gemido e me jogo de costas na cama. Droga! Droga! Por  
que Deus tinha que ter me feito tão tímida?  
— Ela vai, sim — concorda Milla, e eu me remexo nos lençóis  
brancos da cama.  
— Meninas, eu não quero parecer invasiva — digo.  
— Invasiva? — exclama Milla. — Meu Deus, Esmay! O cara te deu o  
número dele , porque ele não queria ser invasivo. Queria te dar o  
espaço que você precisa.  
— É — diz Sthela.  
— Eu sei. Ele é tão perfeito. Eu nem sei como isso é possível. A  
gente se encontrar assim… Parece até que…  
— É um presente de Natal, Esmay! — fala Sthela, sorrindo. Cato  
sobe em sua perna, miando, e ela o faz aparecer na câmera. — Não é,  
Cato? Fala pra titia May que ela precisa agarrar esse gatão.  
— Meu Deus, Sthela… Você é tão direta.  
— E eu não me envergonho disso — diz, orgulhosa.  
Ok. Da próxima vez, vou pensar duas vezes antes de ligar para  
essas duas na intenção de falar da minha vida amorosa. Quer dizer…  
que vida amorosa? Eu sequer tenho uma.  
— Então… — engulo em seco. — Acham que eu deveria ligar?  
A ligação de Milla está péssima agora. Ela deve estar enfiada em  
alguma trilha maluca, já que a chamada do Zoom vive caindo. O  
áudio travando. Não é natural que você esteja às quatro da tarde com  
uma roupa de treino no meio do mato.  
— Sim — responde Sthela.  
— Será que ele pode atender agora?  
— Você pode tentar.  
— Não quero atrapalhar nada importante.  
— Não vai .  
— Será?  
— Só vai saber se tentar.  
— Tá.  
Tá.  
Meu Deus! Porcaria de internet! Oi, gente. O que eu perdi?  
— Só a Esmay em uma jornada infinita de autodepreciação.  
— Não estou me autodepreciando.  
As duas fazem uma careta. Se Milla e Sthela estivessem lado a lado,  
teriam se olhado como cúmplices e formado um complô contra mim.  
Traidoras.  
— Só estou pensando nas implicações disso.  
Implicações? — questiona Milla. — Cacete, Esmay! Você é  
muito certinha. É só uma ligação. Não tem como o doutor Zhang  
saber disso. Não tem como ninguém naquela porcaria de clínica  
saber, na verdade. Relaxa. Não é como se vocês fossem a Angelina  
Jolie e o Brad Pitt quando eram casados.  
— Meu Deus! Que comparação de merda! — grunhe Sthela.  
— É. Concordo.  
— Concordo também — diz Milla. — É uma comparação de merda!  
O que eu quero dizer é que vocês não são famosos. Não é como se  
fosse haver um paparazzi em cada lugar que ele queira te levar.  
Milla realmente está em uma trilha. Ela vira a câmera para que a  
gente possa ver a cachoeira desaguando ao fundo.  
— Lindo, não é? — pergunta ela, e nós concordamos. É mesmo  
lindo.  
— Então eu ligo? — questiono, mordendo as cutículas do meu  
polegar.  
— Liga! — as duas falam ao mesmo tempo. Um coro em tom de  
bronca.  
Durante o dia, continuo sem coragem.  
No entanto, naquela mesma noite, quando giro de um lado para o  
outro na cama e não consigo dormir… quando sinto meu estômago  
afundar e uma ansiedade tomar conta da minha mente e do meu  
coração… quando sinto… saudades de ouvir a sua voz, brinco com a  
ideia de ligar para Oscar.  
A hora que for , foi o que ele disse quando me deu seu número.  
São duas da manhã, e talvez eu tenha tomado coragem de ligar só  
agora porque, definitivamente, ninguém atenderia uma chamada a  
esse horário . A menos que Oscar esteja de plantão.  
E merda! Eu faço uma bobagem estratosférica porque… eu ligo.  
E fico estupefata quando… bem, quando Oscar atende no primeiro  
toque:  
— Está tudo bem?  
— Oscar, me desculpa o horário. — Droga! O que eu falo? — Eu…  
onde você está?  
— Em casa — responde, com uma voz rouca.  
Ouço o que parece ser o barulho de lençóis, talvez.  
— Eu te acordei?  
Merda! Acordei. Ele está com voz de sono. Meio grogue. A resposta  
é sim, E smay!  
— Sim. Está tudo bem? — repete a pergunta.  
— Ah, sim. Eu achava que você estaria de plantão. Me desculpa por  
ter te acordado. Pode voltar a dormir.  
Pode voltar a dormir? Mas o que diabos estou fazendo? Oscar  
deve estar me xingando em três idiomas diferentes agora.  
Felizmente, isso não tem mais volta. Esmay, por que você ligou  
tão tarde? Você está passando mal? Precisa de alguma coisa?  
Ouço um tom de urgência no modo como fala. Como se Oscar  
estivesse disposto a pegar a chave do carro naquele mesmo instante  
para vir me salvar. De novo.  
— É só que… eu só queria conversar com você. Mas acho que  
escolhi um péssimo horário.  
Uma pausa. Assustadoramente longa.  
— Tudo bem.  
Quase consigo visualizá-lo passando as mãos pelos cabelos escuros  
e lisos. Acho que já decorei algumas de suas manias. Essa é uma  
delas.  
Tudo bem tipo vai voltar a dormir ou tudo bem tipo a gente  
pode conversar?  
Eu me acomodo na cama, apoiando as costas na cabeceira e  
abraçando as pernas.  
— Acho que a segunda opção é a melhor escolha — diz, agora um  
pouco mais em alerta. A voz mais firme. — Não consegue dormir por  
quê? Está sentindo dor, enjoo? Me diz, Esmay.  
Oscar adora falar meu nome. E eu gosto de como meu nome soa na  
voz dele.  
— Humm… no momento, só estou sem sono mesmo. Tentei ouvir  
música e ler, mas parece que nem isso consegue mais me distrair.  
Ouço um barulho do outro lado da linha. Ele está rindo? Do quê?  
— O quê? — pergunto, confusa.  
— Me ligou às duas da manhã porque sou a melhor distração à sua  
disposição?  
Ele continua rindo. Uma risada gostosa, que envia arrepios por  
todo o meu corpo. Meu coração pega fogo.  
— O quê?! Não foi isso que eu… não era isso que eu…  
— Eu te distraio?  
— Não! Não , Oscar.  
— Não?  
Acho que ele está adorando isso. Porque continua rindo baixo  
enquanto brinca com a integridade da saúde do meu coração. Órgão  
traidor e fraco.  
— Não.  
— Tudo bem. — Ele para de rir. — Então você me ligou às duas da  
manhã porque me acha um pé no saco e pensou que, se conversasse  
comigo, ficaria tão entediada que isso faria você dormir rapidinho?  
— Não também, Oscar.  
— Tudo bem. Eu não ligo. Graças a Deus que você ligou, Esmay.  
Olha, eu cheguei a me arrepender de não ter anotado o seu número  
naquele dia. Eu não queria ser invasivo. Me achei burro pra cacete.  
Ah...  
— Estou feliz que tenha ligado.  
— Mesmo às duas da manhã?  
— Especialmente às duas da manhã.  
Abro um sorriso. Ele continua:  
— Nunca falaram pra você que alguns homens gostam de acordar  
às duas da manhã pra conversar com mulheres bonitas e inteligentes  
por ligação?  
Solto uma risada frouxa.  
— Não sabia, não é? — pergunta ele, com uma voz rouca e sexy.  
Faço que não com a cabeça, mesmo que ele não esteja vendo.  
— Mulheres… — resmunga.  
Oscar suspira. Sinto a lufada de ar mesmo do outro lado da linha.  
Ele está caçoando de mim.  
Acho graça disso. Quando éramos adolescentes, Oscar era  
engraçado. Mas ainda assim, um pouco travado. Acho que eram as  
circunstâncias da vida dele. Tudo era tão problemático.  
— Senti saudades de você — admito.  
Oscar fica em silêncio. Mas dura pouco.  
— Achei que nunca ia ouvir isso. Também senti sua falta, Esmay.  
— Eu sei.  
— Sabe, é ?  
Dou uma risada. E então ficamos em silêncio.  
— Esmay? — diz ele, em tom de reprovação.  
— O que foi? — respondo, um pouco na defensiva.  
— Você precisa continuar falando. Sem parar, beleza?  
— Eu não…  
— Eu sei que te contei que nós, homens, gostamos de acordar às  
duas da manhã pra falar com mulheres inteligentes e ridiculamente  
lindas. Esse é um segredo nosso , e eu contei — diz, meio sonolento.  
— Mas talvez alguns homens tenham menos resistência. Deve ser o  
meu caso.  
— Ok…  
— Então só continua falando sem parar pra eu não cochilar, tudo  
bem? Eu gosto de ouvir você falar, das risadas que você dá. Quero te  
fazer companhia. Me ajuda a ficar acordado?  
Meu coração idiota dá um salto tão violento que sou obrigada a  
levantar da cama. Respiro fundo uma, duas vezes.  
— Você não precisa ficar acordado. Volta a dormir.  
— Não — fala baixinho. — Pode conversar sobre qualquer coisa.  
Prometo que não vou dormir.  
Então eu falo sobre várias coisas. Porque quando me sinto a  
vontade e quando quero — sou uma tagarela. Não me lembro de  
muita coisa depois disso. Oscar continua ouvindo, comentando uma  
coisa ou outra. Critica quando digo que, na edição do BBB em que  
Juliette venceu, eu assisti como uma louca.  
— Esmay?  
— Oi.  
— Você é muito inteligente, sabia? Sempre achei você fora da  
curva.  
— Isso parece tão condescendente.  
— Não é, não — Oscar garante. Eu reviro os olhos. — Mas sério!  
Como uma pessoa tão inteligente como você consegue assistir a uma  
porcaria dessas?  
— Você sequer assistiu a alguma coisa dessa edição?  
— Eu jamais perderia o tempo que eu não tenho com isso.  
— Hum-rum. Ok.  
Mas quando envio alguns links do YouTube pra ele… quando Oscar  
assiste às maiores tretas entre os principais participantes da edição…  
quando vê alianças destroçadas por fofocas e conspirações… ele se  
torna um comentarista nato, digno de respeito.  
— Isso deve ter sido loucura no ao vivo.  
— Foi. Uma final digna de Copa do Mundo, não acha?  
— Você é sempre tão exagerada assim? — pergunta ele.  
— Você não imagina o quanto.  
— Me fala mais sobre você .  
— Por quê? Só pra depois tirar sarro de mim?  
— Esmay… — ele suspira. Acho que está com sono. Porque eu  
também estou… sonolenta. — Você não faz a menor ideia, não é?  
— Do quê?  
— Do quanto eu…  
A voz de Oscar fica distante. Não porque ele para de falar, mas  
porque o meu corpo começa a ceder antes de mim.  
O celular escorrega um pouco entre os meus dedos. O travesseiro  
parece mais macio. O quarto, mais aconchegante, os lençóis  
quentinhos.  
A última coisa que percebo é a respiração dele do outro lado da  
linha — constante, presente — antes de tudo ficar silencioso.  
E então, eu durmo.  
— Não está mesmo cansado? — pergunto e ouço o barulho de um  
molho de chaves. — Oscar… pode desligar. A gente se fala depois.  
Não quero atrapalhar seu descanso.  
Ouço quando ele abre a porta do apartamento.  
— Você quer desligar? — pergunta, com uma voz suave. — Tudo  
bem se estiver com sono. Você precisa descansar bem.  
— Não quero, não — confesso, quase sussurrando. — Eu gosto .  
— Gosta do quê, Esmay?  
— De ouvir a sua voz.  
Silêncio. Oscar não responde. Meu Deus! Eu acho que exagerei.  
Por que ele não…  
— Eu amo ouvir a sua voz — diz ele, sem rodeios agora. — Na  
verdade, eu amo tudo em você, Esmay. Isso não é nenhum segredo.  
Você sabe.  
— Sei, é?  
— Não tem como não saber. Cheguei de um plantão que pareceu  
sugar até a minha alma. No entanto, quando você me ligou, eu  
atendi. É o que eu sempre faço. Vou estar sempre disponível para  
você.  
— Eu nem sei o que dizer.  
— Diga que aceita.  
— Oscar…  
— Esmay, não tem como eu aguentar mais. — Ele suspira, depois  
ri. É. Acho que ele está dando risadinhas. — Você não pode ser assim  
tão malvada.  
— Não estou sendo.  
Está — retruca ele. — Eu não me importo em ser rejeitado por  
você. Seria uma honra, na verdade. Mas eu queria poder ter a chance  
de ver você para além daquele hospital. Uma única vez. Eu queria  
poder te levar para jantar em algum lugar que não seja a cantina da  
clínica. Um lugar à sua altura.  
Estou corando. Ainda bem que me encontro embaixo do meu  
cobertor, no escuro, com a porta do quarto trancada. Posso ficar  
vermelha à vontade. Ninguém vai saber.  
— Esmay… diga que aceita.  
— Oscar, por favor… — peço.  
Por favor, o quê? Por favor, deixe de ser atencioso, gentil,  
perfeito, incrível…? Por favor, deixe de ser o homem mais lindo que  
conheço?  
— Diga que aceita, meu bem.  
Meu bem? Ele sabe como me fazer derreter. Meu coração acelera.  
Eu quero… dizer que sim.  
— Tudo bem — ele quebra o silêncio. Eu solto o ar que estava  
prendendo. — Sou um homem paciente, Esmay. Leve o tempo que  
quiser. Tenho todo o tempo do mundo quando o assunto é você .  
Ele não insistiu.  
Depois disso, ficamos mais de uma hora conversando ao telefone.  
Sempre fui muito curiosa. Sendo assim, aproveito para perguntar  
algumas curiosidades do corpo humano. Na maioria das vezes, é só  
baboseira. Porém, Oscar parece não se importar. Ele é sempre  
solícito e responde a todas as minhas perguntas. Mesmo as mais  
idiotas.  
Quando pergunto por que sentimos dor de cabeça, já que o cérebro  
não sente dor, ele não hesita em responder, mesmo aparentemente  
exausto:  
— O cérebro não sente dor, mas ele é ótimo em perceber quando  
alguma coisa ao redor dele está errada.  
— Aí ele traduz isso em dor de cabeça? — pergunto, soltando um  
bocejo demorado.  
Oscar dá uma risada baixa. Ele parece estar andando pelo quarto  
agora. Será que está tentando manter o cérebro em alerta? Tentando  
não… dormir?  
— Está com sono, meu bem? — pergunta com uma voz divertida.  
— Não. De jeito nenhum!  
Posso ver a imagem clara de Oscar à minha frente agora. Sorrindo  
de um jeito fofo enquanto balança a cabeça.  
— Você gosta de se torturar, não é? — pergunta.  
— Isso nem de longe é tortura — rebato. — Por favor, Oscar.  
Continua.  
Outro bocejo. Ele sorri.  
— Beleza. Bom, é como morar num prédio silencioso, mas com um  
alarme sensível demais.  
Solto um muxoxo. Será que entendi direito?  
— O cérebro fica em uma “embalagem”. Ele não sente dor, mas  
tudo em volta sente. Quando um vaso dilata demais, um músculo  
contrai ou uma membrana estica, esses sensores disparam.  
— Como um termostato? — indago, curiosa.  
Isso! Será que estou diante de um gênio? — elogia, com uma voz  
gostosa de ouvir.  
— Eu só disse o óbvio.  
Ouço uma torneira sendo aberta.  
— Você tem que aprender a receber elogios, Esmay.  
Reprimo um revirar de olhos. Ok. Ele tem razão. Não me saio  
muito bem com elogios.  
— Continuando…?  
— Beleza. O cérebro funciona como um termostato, meu bem —  
continua. — Ele tenta manter tudo estável. Quando algo sai do  
padrão, ele dispara um aviso: cansaço, dor de cabeça, febre.  
Uma pausa.  
— Gostei dessa metáfora do termostato — digo, orgulhosa de mim  
mesma.  
— Se fosse uma prova oral, eu te daria nota dez. Excelente  
observação. Você é muito inteligente, minha aluna mais excepcional.  
— E também a mais bonita .  
— E também a mais bonita. Óbvio — diz, divertido. Eu sorrio.  
Nós conversamos por mais alguns minutos e, quando desafio  
Oscar a falar todos os ossos do corpo humano, achando —  
ingenuamente — que dessa vez ele iria desistir, ele não só aceita  
como começa imediatamente.  
A voz muda e fica mais baixa, mais lenta. Quase cuidadosa.  
Ele começa pelos maiores, segue pelos menores, e eu deixo de  
prestar atenção nos nomes estranhos muito antes de ele chegar aos  
membros inferiores. As palavras se embaralham num ritmo  
constante, hipnótico. Não importa quantos ossos sejam. Não  
importa como se chamam. O que importa é o jeito como ele fala,  
como se soubesse exatamente que eu estou ali, de olhos fechados,  
respirando mais devagar a cada minuto, quase dormindo. Relaxada  
demais para conseguir me manter acordada.  
Meu corpo afunda no colchão. O cobertor parece mais pesado.  
Mais quente.  
Quando ele chega nos ossos das pernas, eu acho, a voz dele já virou  
só som. Uma presença. Algo seguro. Distante e, ao mesmo tempo,  
perto demais.  
— Não vai conseguir ficar acordada, Esmay — ele diz, em algum  
momento.  
Eu tento responder. Juro que tento. Mas o sono vem antes. Um  
sono que me puxa sem pressa.  
A última coisa que tenho consciência de ouvir é a voz dele outra  
vez, ainda mais baixa, quase um segredo:  
— Dorme bem, meu amor.  
Não sei se ele disse mesmo. Ou se foi só o meu cansaço inventando  
esse carinho.  
Quando penso nisso, já estou dormindo.  
Tento parecer indiferente quando Milla me pergunta na semana  
seguinte:  
— Tem conversado com ele, não é?  
Meu coração acelera. Sinto um aperto na boca do estômago.  
Sim. Todos os dias. O tempo todo.  
Oscar sempre arruma um tempinho para mim.  
— Quê?!  
— Elizabeth — diz em tom de reprovação. Eu me encolho. — Eu  
não sou burra. Não precisa ser nenhum gênio para perceber isso.  
Apesar de ser esse o meu caso também.  
Reviro os olhos.  
Estamos caminhando lado a lado em direção ao bistrô de que mais  
gostamos. Ao menos é isso que eu estou tentando fazer, enquanto me  
esforço ao máximo para acompanhar o ritmo de suas pernas longas.  
Hoje o dia está frio e pede um chocolate quente.  
— Já se beijaram alguma vez?  
— Ah, meu Deus! Não, Milla. — Empurro seu ombro com o meu. —  
Você e Sthela são muito inconvenientes às vezes. Espero que só  
façam isso comigo . Nem todo mundo aguenta.  
— Ah! Se quiser ter o prazer da minha companhia, tem que aturar.  
— Infelizmente eu aturo isso há mais de três anos.  
Yes! Mas e aí? Já saíram, já se beijaram, vocês ao menos já…  
— Nem ouse completar essa última pergunta — interrompo seu  
raciocínio assustadoramente acelerado . As pessoas na rua nos  
olham de cara feia. Talvez eu esteja falando alto demais. — Para de  
fazer perguntas constrangedoras, Milla.  
— Meu Deus! O que falei demais? — diz, levando as mãos ao peito.  
Os lábios dela se curvam em um sorriso torto. — Esmay, você  
claramente está caidinha por este homem. Não consegue nem fingir.  
Aposto que, se ele pedir qualquer coisa, com certeza você vai…  
Tapo a sua boca com as minhas mãos, nervosa. Eu sou rápida,  
graças a Deus. De repente, fico ansiosa. As mãos suando, a  
respiração acelerada. Ah, meu Deus! Acho que alguém aqui precisa  
respirar devagar. Agora . Eu , no caso.  
— Como você é certinha, amiga. São perguntas normais e  
inocentes.  
— Normais, talvez. Inocentes, nem tanto — digo, tentando soar  
controlada.  
Eu não estou entrando em pânico. Me obrigo a acreditar nisso.  
— Certo. — Ela junta as mãos. — Você está parecendo uma  
pimenta de tão vermelha.  
— Eu não…  
— Respira, Esmay. Quero ter a chance de provar esse chocolate  
quente antes de você morrer.  
— Eu morrer? — pergunto, odiando o tom choroso da minha voz.  
— Deus me livre! Por que diz isso?  
— Sim. — Ela responde, olhando fixamente para mim. Estamos a  
alguns metros de atravessar a rua. Fico até com medo de passar em  
cima da faixa por alguns segundos. Isso é besteira. — Tô falando isso  
porque, se continuar a prender a respiração assim toda vez que fala  
do Oscar, não quero nem saber o que vai acontecer com o seu  
cérebro quando…  
Ela se interrompe. Depois, morde o lábio inferior, e eu fico  
confusa.  
Quando… o quê?  
Ludmilla é meio maluca e um pouco imprevisível. Então nunca sei  
o que esperar dela. Seu senso de humor muda como o seu cabelo . O  
tempo inteiro. Inclusive, eu a vi de cabelo natural ontem. Hoje já está  
de trança com jumbo num tom de marrom-claro.  
De repente, me sinto inquieta. Será que ela pretende me jogar na  
frente de algum carro quando ele passar? É . Essa cara dela está  
esquisita. Tá pensando em cometer amigacídio, sim.  
— Não quero nem imaginar o que vai acontecer se você o encontrar  
pessoalmente fora daquele maldito hospital.  
— Do que é que você está falando, sua matadora de amigas? — Ela  
inclina a cabeça, confusa. Acho que não entendeu a crítica explícita  
da minha… acusação sem fundamentos?  
Mas eu juro . Parecia que ela ia me empurrar, sim.  
— Esmay.  
— Oi.  
— Você é esquisita pra cacete!  
— Eu sei .  
— Eu meio que gosto — admite. O sorriso matador continua lá.  
Agarro a alça da minha bolsa de camurça verde, com chaveiros  
fofinhos que ganhei de presente dela e de Sthela, e a observo morder  
os lábios para suprimir uma gargalhada.  
— Espero que tente ser menos esquisita. E, por favor, respira,  
Elizabeth. Se continuar a prender a respiração assim, vai comprimir  
seu cérebro.  
Inclino a cabeça. Agora sou eu que estou confusa.  
— Respira com naturalidade.  
Já estamos atravessando a rua.  
— … E, por favor, esse é o ponto-chave da questão: não fica puta  
comigo?  
— Por que eu ficaria puta com…  
Ah! Ah.  
Mas é óbvio que eu vou ficar brava, Milla.  
Eu acho melhor você correr, sua…  
Não tenho a menor chance de dizer nada disso a ela. Porque, no  
instante em que me viro para olhar em seus olhos, ela já se foi,  
passando por ele .  
Ombros largos, que eu me lembro bem. Os olhos verdes mais  
bonitos que já vi, o sorriso cativante, a beleza assustadoramente  
viciante. Uma montanha de músculos de 1,90 metro. Oscar.  
Ele vem em minha direção. Eu fico paralisada. De um jeito bom,  
claro. Porque eu sou apaixonada por ele.  
As pessoas passam na rua apressadas com os presentes de Natal.  
Conversando sobre a preparação da ceia. Eu continuo parada.  
Catatônica no bom sentido da palavra.  
Ele faz isso comigo. Sinto borboletas coloridas e brincalhonas no  
meu estômago.  
Ele acena com a mão, de leve. Sorri . E depois sorri mais.  
Minha boca fica seca. Tento sorrir, mas parece que estou tendo um  
derrame, eu acho. Sorrio de boca fechada. Com os lábios mais para  
um lado do que para o outro. Ajeito o boné branco na cabeça. Será  
que estou bonita o bastante?  
Olho para ele, que sim. Definitivamente está de tirar o fôlego.  
Meu coração acelera.  
Acho que estou ruborizando. Ele também está. No caso dele , deve  
ser o frio, porque não é possível que ele… Deus! Lembrar de  
respirar. Ok. Milla, sua enxerida! Você vai me pagar.  
Ele se aproxima. Mais e mais. Não saio do lugar. Meus pés  
parecem chumbos. Não preciso me esforçar mais tanto assim…  
Porque, quando eu menos espero, Oscar só precisa de mais um  
passo para chegar até mim. E então, como se isso tudo já não fosse  
demais para o meu coração acelerado… Oscar faz algo que muda  
tudo.  
É rápido, mas tenho tempo de impedir, caso eu queira. No entanto,  
não faço isso. Porque sim. Eu também quero.  
Minhas mãos tremem. Acho que as dele também.  
E é aí que Oscar me beija.  
CAPÍTULO ONZE  
Não é um ultimato  
“ Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem ser  
reprimidos e preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo ardentemente.  
— Orgulho e Preconceito  
O beijo dura o suficiente para me deixar tonta.  
Mal consigo me segurar sobre minhas pernas.  
Então Oscar agarra a minha cintura. Um aperto forte, mas não é  
inconveniente. Eu gosto.  
— Tudo bem? — pergunta, com a respiração falha, os lábios  
entreabertos, os olhos verdes brilhantes. — Me desculpa. Peguei você  
de surpresa. Olha eu…  
Suas mãos ainda tremem enquanto ele me segura. Esse homem  
enorme e um gênio da oncologia está praticamente tendo um  
colapso, e isso tudo é por minha causa? Tento não deixar isso subir à  
cabeça.  
— Você… — insiste ele, cauteloso, o corpo inclinado em minha  
direção. — Está bem? Foi tudo muito…  
É. Foi sim.  
— Estou bem, obrigada.  
Ele assente sem nunca tirar os olhos de mim.  
Oscar é arrebatador. Nunca havia sentido isso por mais ninguém.  
Até a maneira como me toca é diferente. Como se eu fosse… feita de  
cristal. Não. Como se eu fosse feita de uma matéria muito frágil.  
Como se ele quisesse me proteger o tempo inteiro. E Deus, eu  
deixaria ele fazer isso por mim. Amaria ser cuidada por ele.  
— Foi uma armadilha — ele diz. Percebo um leve incômodo em seu  
rosto perfeito. Como ele fala… é quase como se sentisse vergonha . —  
Eu tinha que tentar, Esmay. Milla aceitou ser meu bode expiatório.  
Sinto o rosto corar novamente. O coração batendo forte no peito.  
Não faço a menor ideia de como ele conseguiu convencer Milla a  
fazer isso. Ela é incapaz de guardar segredo. Mas, veja só: guardou.  
— Ela é um excelente bode expiatório — retruco, com a voz fraca,  
insegura de repente. — Ela é esperta também. Quando viu que as  
coisas iam sobrar pra ela, fugiu sem deixar rastros.  
— Uma parceira de crimes excepcional.  
Ergo uma sobrancelha. Depois sorrio.  
— Sim. Ela é .  
Oscar reflete por alguns segundos. Sorrio um pouco mais, agora  
mostrando os dentes.  
— Eu adoro quando você sorri. Esse seu canino… — confidencia  
ele, baixinho. Eu prendo a respiração, porque esses olhos verdes  
bálticos conseguem me hipnotizar. — Não consigo parar de olhar.  
Quando você sorri, quero dizer.  
— Os meus caninos?  
— Sim. Os seus caninos — repete. — Lindos.  
— Obrigada?  
— Aprendendo a aceitar elogios mais facilmente, Esmay?  
— Aprendendo com o melhor.  
Agora Oscar mantém apenas uma das mãos apoiada em minha  
cintura. A outra ele usa para acariciar minha bochecha, tocar meu  
queixo, a pontinha do meu nariz, enquanto fala comigo. Acho isso  
fofo . Oscar é muito fofo, na verdade.  
— Não vai ficar metida , linda.  
Bufo de deboche.  
— Ah, fala sério. Agora que aceitei o fato de ser ridiculamente  
linda, você quer que eu tenha humildade? Não. — Toco o dedo na  
ponta do seu nariz obscenamente arrebitado, e ele o franze. Fofo. —  
Não mesmo. Eu quero ser metida.  
Ele me puxa para longe da multidão que se aproxima. Um grupo  
de homens vestindo roupas engraçadas de Natal .  
Vem cá.  
Olho para ele e sinto aquele calorzinho que sempre surgia quando  
ele me ligava. Quando eu ouvia essa voz. Com essa cadência toda ao  
meu dispor.  
— Você é absurdamente linda, meu amor — diz Oscar, sem  
vergonha alguma, os lábios agora bem próximos à minha orelha.  
Pouco depois, ele volta a me encarar, observando meu rosto com  
cuidado. Memorizando cada centímetro das minhas bochechas  
sardentas. Dos meus lábios. Eu estremeço. Esse homem… — Por  
mim, pode se gabar o quanto quiser. Você tem licença poética da  
beleza pra isso. Não sei se isso existe, mas, se não existir, eu acabei  
de criar.  
Gargalho, e Oscar afunda o nariz no meu cabelo cacheado ralo.  
— A gente pode entrar? — pergunto, apontando com o queixo na  
direção do bistrô. Foi uma armadilha, mas ainda assim eu quero um  
chocolate quente bem gostoso. — Eu… estou com frio.  
— Está com frio, meu amor? — Ele afaga meus ombros. Oscar usa  
uma blusa bem quentinha, preta, e um casaco elegante verde-escuro.  
Combina com a cor de seus olhos. — Vem cá. Isso… Deixa eu te  
esquentar. Espera. Na verdade, eu acho que…  
Ele retira o casaco verde do corpo.  
— Não, Oscar.  
Ele sorri, não se importando.  
Esse homem possui algum termostato no corpo que aumenta a  
temperatura corporal e eu não estou vendo?  
— Melhor agora?  
— Mas e você…?  
— Amor, eu não sou tão sensível assim — murmura , com o rosto a  
centímetros do meu. — E, mesmo assim, não sou eu que estou com  
os lábios roxos.  
— Estou de lábios roxos?  
Ele assente.  
— Sou muito fraca mesmo. Ok. Obrigada. Mas, e então… a gente  
pode entrar?  
Ele reflete por alguns segundos e então assente, os olhos  
procurando os meus.  
— A gente já vai entrar, Frozen — brinca, apertando a ponta do  
meu nariz. — Só…  
Seus olhos, sua voz e seu sorriso são suaves. Oscar não parece nem  
um pouco nervoso. Não como eu. Parece que ele já vinha pensando  
em tudo havia bastante tempo. Ele conhece meu coração como  
ninguém.  
— Só…? — pressiono, inclinando a cabeça para o lado.  
— Esmay… eu…  
Você…?  
Franzo as sobrancelhas. Inclino ainda mais a cabeça. Talvez eu  
esteja ficando um pouco tonta com esse ângulo estranho.  
— Você aceita casar comigo?  
Arregalo os olhos. Faz só algumas semanas que a gente se  
reencontrou e eu… Não, espera . Ele disse isso mesmo? Eu devo  
estar delirando por conta do frio. Porque Oscar definitivamente não  
me pediu em casamento.  
— O que você disse?  
Ele sorri, envergonhado. Fecha os olhos com força e então os abre.  
Estão mais brilhantes do que nunca.  
— Você gostaria de casar comigo?  
Se eu gostaria…? Abro a boca para responder, mas ela permanece  
aberta.  
Consigo sentir meu sangue pulsando nos dedos, no pescoço. Todo  
o meu corpo pulsando. Por Oscar ou para Oscar. Eu não sei. Meu  
coração está saltitante e, ao mesmo tempo, confuso.  
— Oscar, eu estou… — De repente, paro. Engulo em seco. Respiro  
fundo. — É assim que você imaginava que seria o seu pedido de  
casamento?  
Era uma pergunta verdadeiramente inocente. Eu estava chocada,  
mas também muito curiosa. Porque até mesmo meu coração sabia  
que Oscar não era impulsivo. Mas isso é…  
— Eu não faço a menor ideia, Esmay.  
Ele está sério. Um pouco nervoso agora.  
— Oscar, você devia estar ajoelhado ou… — Sinto meu rosto  
queimar. Os lábios tremem. Mordo a bochecha. Estou tão nervosa  
que tenho medo de desmaiar. — Você devia , amor.  
Ele arregala os olhos. Eu nunca o chamei assim. Mas quem eu  
quero enganar? Eu amo esse Homem. E não é um amor qualquer.  
Senti isso durante boa parte da minha vida , e acho que isso não vai  
mudar. Oscar sente o mesmo. Essa é a prova.  
Ele se ajoelha.  
— Você devia me oferecer um anel?  
Seu sorriso agora é imenso.  
Ele retira do bolso uma caixinha. Lá dentro, um anel lindíssimo.  
Pedras cravejadas em um tom verde. Parecido com… a cor dos seus  
olhos.  
Tenho um sobressalto.  
— Melhor agora, meu bem? — pergunta, sorrindo, e eu quero  
beijá-lo.  
— Quando foi que você…  
— No dia em que encontrei você pela primeira vez — reflete,  
sorrindo. — Quando você quis dá uma de bela adormecida.  
Meus olhos se arregalam, quase saltando das órbitas.  
— Oscar, isso é completamente insano.  
— Eu sei . Mas é o que eu quero, Esmay. Quero ser seu marido. Me  
deixa cuidar de você?  
— Você me acha tão bonita assim a ponto de não conseguir esperar  
mais alguns meses?  
— Isso, meu amor. Você é bonita demais para passar despercebida.  
É só por conta disso que quero me casar com você.  
Ele revira os olhos e depois sorri. Um sorriso frágil e bonito. Q  
uero encapsulá-lo.  
— Tive tempo demais para pensar a respeito, Esmay — declara. —  
Antes mesmo de encontrar você naquela escada. Antes até de aceitar  
a residência na clínica do Zhang. Tive muito tempo para fantasiar  
uma vida com você. E, se o que você quer é pensar mais um tempo,  
eu espero. Não é um ultimato. Como já disse, sou um homem  
paciente.  
Minhas mãos estão tremendo. E isso definitivamente não tem nada  
a ver com o frio.  
— Posso fazer a pergunta quando se passarem mais alguns meses.  
Por mim, tudo bem.  
Faço que não com a cabeça.  
Não é isso que eu quero.  
— Não… você não aceita? — pergunta, ainda de joelhos. Está tão  
frio. O chão ainda molhado da chuva mais cedo. Mas ele sequer se  
importa. — Pode pensar mais a respeito. Não precisa responder  
agora.  
— Não, eu… Oscar, eu…  
— Amor, você quer que eu pergunte de novo?  
Faço que não novamente.  
— Não precisa.  
Meu rosto está queimando. Meus olhos se enchem de lágrimas.  
— Meu amor…  
— Eu aceito — digo, e mais lágrimas molham meu rosto.  
Quero pular em seu colo, abraçá-lo, beijá-lo muito. Mas fico  
desnorteada. Deve ser o choque. As pessoas ao redor continuam  
passando. Sinto o cheiro de café e chocolate quente vindo de dentro  
do bistrô. O vento gelado castiga minha pele, mas meu coração, em  
contrapartida, fica quentinho.  
— Aceito me casar com você, Oscar! — repito. Ele se levanta  
rapidamente. Uma montanha imensa que me separa do resto do  
mundo. — Quero tudo com você, meu amor. Sempre quis.  
— Meu Deus, Esmay! — Ele me abraça. — Meu amor, eu nem  
acredito. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Sério!  
Ele me levanta e me rodopia no ar algumas vezes. Gargalho, e ele  
me aperta ainda mais.  
Os braços fortes ao redor da minha cintura. O cheiro gostoso  
inundando minhas narinas. Sua voz linda quando diz que sou  
perfeita, que me quer, que sou o amor da sua vida. Arrepios  
percorrem meu corpo. Esperei tanto tempo por isso que agora parece  
que tudo finalmente se encaixou.  
— Eu te amo, Oscar.  
Ele sorri. Eu também estou sorrindo há um bom tempo. Minhas  
bochechas doem.  
— Oscar, você não tem ideia do quanto eu…  
— Acho que eu tenho, sim.  
Ele me põe no chão. Estou feliz, tonta e completamente inebriada.  
Minhas emoções à flor da pele.  
— Eu te amo — repito. Ele assente. — Você é perfeito.  
Seu sorriso fica maior.  
— Esmay… — chama, com o queixo apoiado no topo da minha  
cabeça. Eu me afasto para olhar bem seu rosto. — Meu amor, será  
que finalmente eu posso só…  
Ele provavelmente não viu meu sorriso antes, porque agora,  
quando me encara de verdade, sua voz fica mais confiante.  
— Será que agora eu poderia… beijar você?  
— Oscar… — Ele me encara, os olhos brilhando. — Eu achava que  
você nunca iria pedir isso.  
E então ele me beija. Diferente do outro, este é mais  
reivindicatório. Porque agora Oscar sabe o que eu quero de verdade.  
Após alguns segundos, já sem fôlego, ele me chama. Estou tão feliz  
que me sinto um pouco sonolenta. Como isso é possível?  
— Amor? — Oscar acaricia minhas costas. Uma carícia terna. Eu  
poderia morar nesse abraço. — Feliz Natal , querida.  
Olho em seus olhos e vejo a simplicidade dessas palavras. Sim.  
Hoje é Natal. E sim , eu estou feliz . Como nunca estive.  
— Feliz Natal, meu amor — digo.  
Ele sorri.  
— Na verdade… Feliz Natal, meu futuro marido .  
Quando eu digo, já estou de olhos fechados sem conseguir ver sua  
reação. Mas sei que Oscar está sorrindo . Acho que ele nunca vai  
parar de sorrir. Ao redor , o frio continua — mas aqui, entre o cheiro  
de chocolate quente e o sorriso dele, eu finalmente estou em casa.